Por Domingos Olímpio (1903)
A porta do armazém fora encontrada aberta, sem o menor vestígio de violência, caixas com fazenda abertas e a gaveta que continha o dinheiro arrombada. Estavam bem patentes os indícios do crime, pegadas, do ladrão impressas na poeira, pingos de velas de carnaúba sobre as caixas e o instrumento, empregado para forçar a gaveta, um grande formão de carpinteiro.
Quem seria o audacioso criminoso? O nome de Alexandre, pronunciado por lábios anônimos, no meio da turba, foi logo envolvido pela sinistra atmosfera da suspeita. Ele guardava as chaves do armazém; era empregado de inteira confiança, conquistada pelo mais irrepreensível procedimento, e os mais abonados precedentes; mas não se podia eximir da responsabilidade do fato, senão por desídia, por falta de vigilância. Demais, naquele dia, ele sempre pontual, chegara tarde, notando-se-lhe no semblante profunda perturbação ao encontrar a porta aberta, e o almoxarife, que o interrogava com o olhar severo. Não pudera, no primeiro momento, se justificar ou explicar as circunstâncias que o denunciavam. Indicações vagas, circulando na massa de retirantes, aludiam a fatos que davam corpo às suspeitas. Ele estava para casar; pretendia deixar a cidade; era bem possível que a paixão por Luzia-Homem o alucinasse ao ponto de arrastá-lo a tamanha desgraça. Por outro lado, alguns amigos que o não abandonaram na hora do infortúnio, alegavam que, tendo as chaves, não necessitaria de deixar a porta aberta, apenas encostada, recorriam aos precedentes de porte ilibado, a doçura de caráter, maneiras de pessoa bem-ensinada e de boa procedência.
Entre os pró e contra, prevaleceu o depoimento de Crapiúna, afirmando haver visto, à meia--noite, mais ou menos, um vulto com uma trouxa volumosa subir apressadamente a rua na direção da igreja. Não jurava que fosse Alexandre, por não ter, em consciência, absoluta certeza, e para que não dissessem que o acusava por andar enticado com ele; mas a verdade é que tinha o mesmo andar e a mesma estatura. Não o perseguira por não lhe passar, então, pela cabeça, a idéia de um crime tão vil. Belota confirmava, em todas as minúcias, a história do camarada, protestando todavia, que, até à véspera, seria capaz de meter a mão no fogo por tão bom moço; mas... a ocasião fazia o ladrão...
Alexandre foi interrogado. Estava tão abatido pela comoção, que fez declarações incongruentes, contraditórias e inverossímeis, nem pôde explicar, de modo plausível, a demora. Acossado pelas questões da autoridade, limitava-se a protestar com voz angustiada:
— Juro que sou inocente, seu Delegado. Eu nunca me sujei com o alheio. Antes me secassem as mãos e me faltasse a luz na hora da morte!
Continuava o interrogatório, aliás conduzido com imparcialidade complacente, quando a audiência foi interrompida por estranho rumor, gritos e imprecações ameaçadoras, estrugindo na rua. Aquecidas as faces pela fadiga da caminhada, os grandes olhos lampejantes de chispas fugitivas e o traje em desalinho, Luzia penetrou nos densos magotes humanos, que lhe embaraçavam a passagem, com ímpeto irresistível; e foi abrindo larga brecha, afastando aos empurrões homens e mulheres, sob uma saraivada de remoques, queixumes e impropérios.
— Arreda, que lá vem Luzia-Homem, como uma danada! ...
— Mulher do demônio, você não enxerga a gente, sua bruta?! ...
— Esta excomungada está com o diabo no coiro!...
— Vote! malvada! ...
— Ficou como lacraia assanhada, por causa do macho...
Luzia era insensível às queixas e insultos, foi avançando sem desfalecimento, sem hesitação. Ao enfrentar a porta, Belota pretendeu tolher-lhe o passo, mas foi repelido com possante e rápido movimento. Igual sorte tiveram Cabecinha e Crapiúna. Este lhe não ousou tocar, inanido por estranho terror. Surdiu, enfim, na sala, e parou indecisa, espantada por se achar entre pessoas notáveis, aturdidas pela surpreendente invasão. Depois se dirigiu a Alexandre, que a contemplava estupefato, num misto de assombro e alvoroço.
— Que foi isto, seu Alexandre? ...
— Nada – respondeu ele, baixando os olhos – Um impute, que me fizeram ...
— Mas é falso!... Não é?...
— Juro por alma da defunta minha mãe...
E grossas lágrimas lhe deslizaram pelas faces tostadas, embebendo-se na barba crespa e aloirada.
— Seja homem, Alexandre – disse-lhe então a moça, com voz vibrante e enérgica – Deus é grande!... Quem não deve, não teme! ...
— Choro de vergonha, porque nunca me vi em semelhante desgraça...
Ela, animando Alexandre com a protetora carícia de um olhar inefável, voltouse resoluta e calma para os circunstantes. Do desalinho das roupas, o lençol pendido do braço a arrastar pelo chão, o cabeção de renda emoldurando o seio nu e palpitante, as desgrenhadas madeixas a lhe caírem em ondulações fulvas de serpentes negras; dos olhos, do gesto e da voz, um concerto de convicção e firmeza, irradiava sobrenatural encanto, empolgando o auditório, subjugado pela esplêndida e fascinante exibição da força e da beleza, harmonizadas naquela admirável criatura.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.