Por Aluísio Azevedo (1880)
A face dianteira, posto que um tanto chata, era bem arquitetada, podendo ser dividida em três partes distintas. — A central, com cinco janelas de honra e três portas de entrada geral, sendo a do centro mais larga e mais guarnecida - e as duas partes laterais, inteiramente iguais entre si, com três janelas cada uma e fechando em graciosa curva as extremidades do frontispício.
Destas extremidades, partiam duas alas de colunas, que, sustentando um esférico avarandado de balaústres do mesmo mármore das cimalhas, ladearam elegante e circularmente o edifício.
O portão central com pilares de mármore também cor-de-rosa abria para um átrio, espécie de corredor quadrado, cujas paredes betumadas com terra cozida apresentava, em alto relevo, assuntos mitológicos, notando-se alguma monotonia na disposição simétrica das figuras meio humanas e meio irracionais, sendo na maior parte fabulosas.
O chão desse corredor, ladrilhado de pedra de diversas cores, terminava por uma ampla escadaria de pedra calcária, dividida em dois lances, que se encontravam na extremidade superior. Aí uma varanda gradeada com vista para o corredor dava passagem para o interior da casa por uma larga e bonita porta, que comunicava imediatamente com a sala de espera, na qual uma infinidade de estatuetas, vasos de pórfiro e outros muito variadíssimos objetos de arte distraiam a atenção de quem lá se achasse.
Seguia-se a sala de visitas, preparada e guarnecida com gosto e rigor, sobressaindo do roxo escuro das paredes a brancura opaca dos bustos e estatuetas de jaspe colocadas de espaço em espaço sobre trabalhadas peanhas de basalto; magníficas mesas de sicómoro, caprichosamente talhadas, refletiam-se, pejadas de delicadas tetéias, nos espelhos oitavados com moldura de metal dourado embutido no ébano; o chão, de madeira brunida, luzia como uma lâmina de aço polido, refletindo o fundo artisticamente talhado das cadeiras e das mesas.
Atravessavam-se ainda algumas casas, destinadas a salões de baile, alcovas particulares e câmaras de recreio, tais como biblioteca, sala de fumar, quarto de armas, etc., até chegar a uma enorme varanda que costeava em semicírculo de um lado a outro toda a casa.
Efetivamente, dessa varanda gozava-se de uma vista esplêndida e variadíssima: das janelas da frente devassava-se a Chiaja, Vila Realie e lados de Capo di monte; quem ai estivesse veria o formigar constante e geral da população e sentiria o confuso motim dos cafés, restaurantes, ourivesarias e casas de modas, de que já então abundava a rua de Toledo; daí envolveria agradavelmente com a vista o soberbo Palácio Real com o seu jardim à beira do golfo, e os seus grupos de bronze no começo do jardim.
Do fundo, davam as vistas sobre uma magnífica chácara, pertencente à casa, bem plantada e guarnecida, tendo no centro um belo chafariz de mármore rajado. Galgavam depois os olhos os grupos amontoados de casas e quintais, a alcançavam finalmente os pitorescos arrabaldes, anunciados pela copa de árvores seculares.
CAPÍTULO II
Não há nada tão desastrado e perigoso como mudar repentinamente de posição.
Modificam-se os caracteres mais firmes e delicados e confrangem-se as crenças mais arraigadas; é um desmoronar doloroso, é um despertar de náufrago: ilusões desfeitas, convicções profanadas, afetos destruídos, tranqüilidade nula, amor proscrito — tais são os efeitos da luta desigual dos hábitos de toda vida com o capricho vaidoso de um dia; tais são os rastros que, após a tormenta, sobrenadam à flor do oceano revolto da alma, restos de um coração que naufragou.
Grosseira e estúpida é a que leva o homem a trocar a paz segura do lar pela suposta fortuna.
Foi isso que sucedeu à família do pescador - enriqueceu.
Para alguns, enriquecer é naufragar, não em alto mar, porém em alta sociedade.
O vício é a fome desse naufrágio.
Maffei enfronhara-se na opulência como uma casaca alheia: sentia-se mal; incomodavam-lhe as mangas compridas demais, porém a tudo fechava os olhos, contanto que desses sacrifícios resultassem para ele dignidades e considerações.
Era o seu sonho dourado.
E com essas honras e com esses supostos títulos acharia ele a felicidade?
Não, de certo, porque a verdadeira felicidade é incompatível com o ruído e o fulgor. Não, porque ela é tranqüila, singela, econômica a alheia a tudo que é brilhante e espetaculoso.
A felicidade, como o mais neste mundo, é relativa, e só pode subsistir dentro de seus competentes limites.
Maffei, cego pela ambição, buscava uma felicidade alheia. Desgraçado!...
fatalmente seria vítima da sua cegueira, tanto quanto uma ave que tentasse mergulhar ou um peixe que quisesse voar.
A casa cinzenta da rua de Toledo era propriedade do antigo pescador.
Com algum jeito, conseguiu introduzir nela o jogo elegante; receber todos os sábados e gastar todos os dias.
O Ouro é para o parasita o que o imã é para o ferro: em pouco tempo, encheram-se os salões de Maffei. E no meio daquela gente que o adulava, o rico burguês sentia-se grande, invejado e respeitável..
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.