Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Conclui-se pois que um amante é mais apto que um marido para fazer a felicidade da mulher; e então, uma vez que minha filha não tivesse de viver eternamente só, seria preferível dar-lhe um amante.

Mas, e a sociedade?...

Sim, teria eu a coragem de afrontar com inabaláveis e velhos preconceitos estabelecidos até hoje?... Só o casamento, segundo os nossos ilógicos costumes, tão injustos para o meu sexo, dá à mulher o livre exercício de seus direitos naturais e só dele podemos receber a consagração da maternidade, que é o ato capital e mais transcendente no destino genérico de nós todas.

Substituir o marido por um amante é fácil de dizer aqui nestas páginas, mas, na vida real, é coisa delicadamente difícil de pôr em obra.

E minha filha, que não foi criada fora da sociedade, estaria disposta a consentir nisso? Não se julgaria lesada na substituição e eternamente ferida no seu decoro? E afinal, no fundo, qual de nós duas teria razão e bom senso: eu em dar-lhe um amante; ou ela em rejeitá-lo? E quem me diz que, assegurando-lhe a felicidade doméstica, não iria por outro lado fazê-la muito mais desgraçada, privando-a dos gozos e das regalias, que o casamento proporciona à mulher, fora dos limites do leito, e do quarto, e que a sociedade nega formalmente a toda e infeliz que lhe não é endossada por um representante legítimo?... As quatro paredes de uma alcova de amor podem conter um vasto paraíso de intérminas esperanças e um mundo de venturas; o pequeno espaço de uma cama é, entre todas as vastidões da terra, o campo mais largo e mais importante no destino do homem — é aí que ele morre. Sim senhor! tudo isso é verdade e em tudo isso eu creio; mas não entrarão também, como requisitos de felicidade na vida de uma mulher de hoje — os bailes, o lírico, a estação em Petrópolis, as águas de Caxambu, os domingos de corrida, o jogo, os jantares diplomáticos, a palestra e a convivência enfim com o escol da sociedade?...

E, o que é mais sério, um amante, por melhor escolhido por mim, faria com efeito a felicidade de Palmira? ou, quem sabe, se a razão do tédio e das dolorosas falhas da vida conjugal não residiriam particularmente na forma da ligação, mas em qualquer outro fato que tanto entrasse na esfera da ligação legítima como na da ilegítima!...

Sim, porque meu marido foi em algum tempo também meu amante; uniu-se comigo porque me amava e era fervorosamente correspondido; eu reconhecia nele um ente superior e sentia-me feliz em precisar da sua proteção. E tudo isso não impediu, apesar de nossa lealdade de conduta, que Virgílio se sentisse farto de mim e eu dele igualmente; o que fez de nós, até nos separarmos para sempre, dois desgraçados que amaldiçoavam, cada um no segredo da sua íntima miséria, a existência de galés que arrastávamos ao lado um do outro.

Ah! minha filha, minha filha! inda uma vez te digo que em verdade só tu foste a minha consolação e a minha ventura; n]ao quero que mais tarde possas, por tua vez, dizer o mesmo, porque a maternidade, só por si, não constitui, ou não deve constituir, a felicidade completa de uma mulher.

Não! Hás de desfrutar todo inteiro o quinhão que te toca no banquete da vida! hás de gozar o que a natureza generosamente criou para o conforto da tua alma e do teu corpo! Fruirás todas as delícias de que for capaz a poesia do teu amor; terá todos os beijos que te pertencem; terás a realização de todos os teus castos e voluptuosos sonhos de moça! E terás também, ao lado disso, todos, todos os prazeres, que a sociedade em que nasceste proporciona dentro do seu orgulho e dentro da sua vaidade!

CAPÍTULO VII

A promessa estava sinceramente feita, mas qual seria o meio de a cumprir? Onde estaria afinal a misteriosa causa de se não poder obter essa felicidade que parece à primeira vista tão simples, tão natural e tão justa? Qual seria o meio de tornar, não só possível, mas deliciosa, a vida em comum de dois entes, que se amem e queiram viver eternamente um para o outro?

Como conseguir a vida reta de um casal, sem a privação do amor, que é a base de todas as felicidades da mulher perfeita, mas também sem essas intermitências do tédio, sem os tristes desfalecimentos do entusiasmo de parte a parte? Como descobrir para a minha Palmira uma existência larga, completa, boa e fecunda, sem as misérias do casamento e sem as misérias da mancebia; sem os beijos hipócritas, sem os vergonhosos recursos do fingimento conjugal, que fazem dos casados verdadeiros cabotinos do amor; mas igualmente sem as decepções amargas, e as dores escondidas, e as melancolias da exclusão social e o estéril arrependimento dos casais ilegalmente constituídos?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1213141516...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →