Por Machado de Assis (1871)
Jorge, entretanto, não perdeu ocasião de a encontrar e ver. A presença, o respeito, as provas de dedicação, a vida exemplar do moço, e além do mais, certa reminiscência que ficara no coração da moça, tudo isso fez que se precipitasse o desenlace natural da situação.
Um ano depois da morte do dr. Marques, casavam os dois primos. A notícia não causou grande espanto na sociedade equívoca, em que Jorge educara a sua mocidade. Meio perdido já estava ele, disse galhofeiramente a dama a quem ele acompanhara no Ginásio na noite que lá o viu o comendador.
Quem o casou foi o padre Barroso. Não se pode imaginar a alegria do bom velho. Parecia aquilo obra sua. E era, na verdade.
Um mês depois, estando ele em casa de Jorge, contou este a impressão profunda que recebera nos cinco dias em que assistira à agonia do médico.
— Foi só então, concluiu ele, que eu comecei a amar.
O padre sorriu.
—Nihil sub sole novum, disse ele. Há dezenove séculos aconteceu o mesmo a um homem ilustre que perseguia os cristãos. No caminho de Damasco, uma visão o converteu. Esse homem era S. Paulo. Uniu-se à melhor das noivas, a Igreja, e oxalá vocês se amem tanto, como aqueles dois se amaram. Deus me perdoará a comparação, porque amar é estar perto do céu.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.