Por Machado de Assis (1869)
O major, cercado pelos dois amigos, pedia-lhes com instância que lhe fossem buscar a filha; mas eles não consentiram nisso. Então, o pobre velho instou com o doutor que não deixasse de casar com ela, e ao mesmo tempo repetiu a declaração de que lhe deixava uma fortuna. Enfim sucumbiu.
Ficou assentado entre o coronel e o doutor que a morte do major seria participada à filha depois de feito o enterro, e que este teria lugar com a maior discrição possível. Assim se fez.
A ausência do major ao almoço e ao jantar do dia seguinte foi explicada a Celestina como proveniente de uma conferência em que ele estava com pessoas de sua amizade. De maneira que, ao passo que do outro lado da casa se achava o cadáver do pai, a filha ria e conversava à mesa como nos seus melhores dias.
Mas feito o enterro era preciso dizê-lo à filha.
— Celestina, disse-lhe o coronel, tu vais casar brevemente com o dr. Antero.
— Mas quando?
— Daqui a dias.
— Dizem-me isso há que tempo!
— Pois agora é de uma vez. Teu pai...
— Que tem?
— Teu pai não volta por enquanto.
— Não volta? disse a moça. Pois onde foi ele?
— Teu pai foi para o céu.
A moça ficou pálida ouvindo a notícia; não lhe ligava nenhuma idéia fúnebre; mas o coração adivinhava que por trás daquela notícia havia uma catástrofe. O coronel procurou distraí-la.
Mas a moça, vertendo duas lágrimas, duas só, mas que valiam por cem, disse com profunda amargura:
— Papai foi para o céu e não se despediu de mim!
Depois recolheu-se ao quarto até o dia seguinte.
O coronel e o doutor passaram a noite juntos.
Declarou o doutor que a fortuna do major estava por trás de uma estante, na biblioteca, e que ele sabia o meio de abri-la. Assentaram os dois no meio de apressar o casamento de Celestina sem prejuízo dos atos da justiça.
Cumpria, porém, antes de tudo, arrancar a moça daquela casa; o coronel indicou a casa de uma parenta sua, para onde a levariam no dia seguinte. Assentados estes pormenores, o coronel perguntou ao doutor:
— Ora, diga-me; não crê agora que haja uma providência?
— Sempre acreditei.
— Não minta; se acreditasse não teria recorrido ao suicídio.
— Tem razão, coronel; dir-lhe-ei até: eu era um pouco de lodo, hoje sinto-me pérola.
— Compreendeu-me bem; eu não queria aludir à fortuna que veio encontrar aqui, mas a essa reforma de si mesmo, a essa renovação moral, que obteve com este ar e na
contemplação daquela formosa Celestina.
— Diz bem, coronel. Quanto à fortuna, estou pronto a...
— A quê? a fortuna é de Celestina; não deve desfazer-se dela.
— Mas podem supor que o casamento...
— Deixe supor, meu amigo. Que lhe importa ao senhor que suponham? Não tem a sua consciência, que lhe não argüe coisa nenhuma?
— É verdade; mas a opinião...
— A opinião, meu caro, não é mais do que uma opinião; não é a verdade. Acerta às vezes; outras calunia, e quer a desgraça que mais vezes calunie do que acerte. O coronel em matéria de opinião pública era um perfeito ateu; negava-lhe a autoridade e a supremacia. Umas das suas máximas era esta: “.
Foi difícil ao doutor e ao coronel convencer a Celestina de que deveria sair daquela casa; mas enfim alcançaram levá-la para a cidade de noite. A parenta do coronel, prevenida a tempo, recebeu-a em casa.
Arranjadas as coisas de justiça, tratou-se de realizar o casamento.
Antes porém de chegar a esse ponto tão almejado pelos dois noivos, foi preciso habituar Celestina à vida nova que começava a viver e que ela não conhecia. Educada entre as paredes de uma casa isolada, longe de todo o rumor, e sob direção de um homem enfermo da razão, Celestina entrou num mundo que jamais sonhara, nem dele tinha notícia.
Tudo para ela era objeto de curiosidade e espanto. Cada dia trazia-lhe uma emoção nova. Admirava a todos que, apesar da singular educação que tivera, soubesse tocar tão bem; ela tivera com efeito um mestre chamado pelo major, que desejava, dizia ele, mostrar que um anjo, e principalmente o anjo Rafael, sabia fazer as coisas como os homens. Quanto à leitura e escritura, foi ele mesmo quem lhe ensinou.
XIII
Logo depois que voltou à cidade, o dr. Antero teve cuidado de escrever a seguinte carta aos seus amigos:
O dr. Antero da Silva, recentemente suicidado, tem a honra de participar a V. que voltou do outro mundo, e se acha ao seu dispor no hotel de ***.
Encheu-se-lhe a sala de gente que correra a vê-lo; alguns incrédulos supuseram simples caçoada de algum homem amigo de pregar peças aos outros. Foi um concerto de exclamações:
— Não morreste!
— Pois quê! estás vivo!
— Mas que foi isto!
— Aqui houve milagre!
— Qual milagre, respondia o doutor; foi simplesmente um meio engenhoso de ver a impressão que causaria a minha morte; já soube quanto quisera saber.
— Oh! disse um dos presentes, foi profunda; pergunta ao César.
— Quando soubemos do desastre, acudiu César, não quisemos crer; corremos à tua casa; era infelizmente verdade.
— Que marreco! exclamava um terceiro, fazer-nos chorar por ele, quando talvez se achasse perto de nós... Nunca te hei de perdoar aquelas lágrimas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O anjo Rafael. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1869.