Por Aluísio Azevedo (1887)
Em França, chegou a falar ao pai em recolher-se a um convento. O Conselheiro disparatou:
— Estava doida! Pois ele tinha lá criado uma filha com tanto esmero para a ver freira?... Não lhe faltava mais nada! Ah! bem quisera opor-se àquelas incessantes visitas aos mosteiros, aos cemitérios e às igrejas! Não se opusera — aí estavam agora as conseqüências! — Ser freira! Tinha graça! Não havia dúvida — tinha muita graça que a Sra. D. Madalena fosse a Paris para ficar num convento! Mas era bem feito!... era muito bem feito, porque, desde o dia em que se deu o que se dera com a visita ao túmulo de Eloisa e Abelardo, que ele devia estar prevenido contra semelhantes passeios e tomar providências a respeito daquela mania religiosa!
A visita ao túmulo dos legendários amantes fora com efeito muito fatal à filha do Conselheiro. Esta, depois de contemplá-lo em silêncio e por longo tempo, estática, abriu num pranto muito soluçado, findo o qual, pôs-se a dançar e cantar, num ritmo, que ia aos poucos se acelerando. O pai quis contê-la; Magdá fugiu-lhe, correndo pelo cemitério, saltando pelas sepulturas, tropeçando aqui e ali, tão depressa caindo como se levantando, a soltar gritos que pareciam uivos de fera esfaimada. Afinal, já sem forças e com as roupas em frangalhos, abateu por terra, ofegante, mas encabujando ainda num rosnar convulsivo, até perder os sentidos, e logo pegar em sono profundo, do qual só despertou vinte e tantas horas depois, já no hotel, para onde a levaram, sem que ela desse acordo de si.
Estava no período da coréia e das convulsões.
Este acidente, porém, em vez de lhe servir de lição e de afastá-la de tudo que lhe pudesse causar novas crises, foi, ao contrário, como que o ponto de partida da sua declinação para as coisas religiosas. Começou desde então a sentir-se oprimida por uma ansiedade sem objetivo nem causa aparente; às vezes uma grande mágoa a sufocava, enchendo-lhe a garganta de soluços indissolúveis; outras vezes eram titilações por todo o corpo, uns pruridos que a irritavam, que lhe metiam vontade de morder as carnes, de açoitar-se, de beliscar-se até tirar sangue. E, quando cessavam estas tiranias da matéria, voltavam de novo as mágoas, e então o que a consumia era um desejo esquisito, que lhe comia por dentro, onde e porque não sabia dizer; e depois ma esperança de conforto, um como ideal despedaçado no seu interior, cujas incalculáveis partículas se lhe espalhassem por todo o ser e procurassem fugir, transformadas em milhões de suspiros.
Valia-se então das súplicas religiosas e ficava longo tempo a rezar, banhada em lágrimas, os olhos injetados, os lábios trêmulos, o nariz frio de neve. Porém a oração não a confortava, e a infeliz pedia a Deus que a matasse naquele mesmo instante ou lhe enviasse dos céus um alívio para a suas aflições.
Foi neste estado que Magdá tornou ao Rio de Janeiro. A velha Camila, cuja beatice emperrara com o tempo e já tresandara a idiotia, rejubilou ao vê-la assim; durante a viagem da sobrinha, ela se recolhera ao convento de Santa Teresa, onde tinha amigas e onde costumava dantes ir passar dias e às vezes semanas inteiras, no tempo em que ainda não estava tão mal de saúde. Qual não seria, pois, o seu gosto, quando Magdá, fechando-se com ela no quarto, abriu o coração e franqueou à devota todas as vagas mortificações e místicos arrebatamentos da sua pobre alma enferma?
— Fizeste muito bem, minha filha! aplaudiu a tia, abraçando-a transportada. — Fizeste muito bem em te voltares para a igreja! Deixa lá falar teu pai, que não entende disto e está tão contaminado de heresia como qualquer homem deste tempo. Deixa-o lá e entrega-te às mãos de Deus, que terás bem-aventurança na terra, como mais tarde a pilharás no céu.
A sobrinha falou em casamento.
— Se encontrares marido, respondeu a velha, e entenderes que deves casar — casa-te, menina, que essa é a vontade de teu pai; mas também se não casares, nem por isso serás menos feliz, uma vez que já estejas na divina graça de Nosso Senhor Jesus Cristo...
E, depois de cruzar as mãos sobre o peito e revirar os olhos para o céu, acrescentou: — Não tenho eu vivido até hoje tão solteirinha como no dia em que nasci?... E, olha, rapariga, que o homem nunca me fez lá essas faltas! Ainda em certa idade, quando andava no fogo dos meus vinte aos trinta, vinham-se assim umas venetas mais fortes de casamento; mas que fazia eu? — Disfarçava; metia-me com os meus santinhos; rezava à Nossa Senhora do Amparo, e com poucas — nem mais pensava em semelhante porcaria! A coisa está em tirar uma pessoa o juízo daí! Olha: decora a oração que te vou ensinar, e reza-a sempre que sentires formigueiros na pele e comichões por dentro!
A oração constava do seguinte:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.