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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

O ríspido quadrúpede sossega

E pára no ar. No rosto do guerreiro

Vê as próprias feições o grande Almada,

Olhos, cabelos, boca, faces, tudo,

Tudo é dele. Ó prodígio! Voz solene

Do ponto mais recôndito do espaço,

Onde estrela não há, não há planeta,

Estas palavras singulares solta:

“O bravo cavaleiro és tu, prelado,

E o domado corcel é o teu rebanho,

Que embalde morde o freio e se rebela

Contra ti que hás vencido el-rei e o povo,

Tornando em cinzas o atrevido Mustre.”

III

Deste agradável sonho consolado,

Abre o pastor os olhos, vira o corpo,

E outra vez adormece. Novo quadro

E diverso lhe pinta a fantasia.

Vê-se diante de provida mesa,

À direita do papa, e come e bebe

De cem bispos servido. Entusiasmado

Com as finezas de Alexandre Sétimo,

O prelado um discurso principia

Depois de haver tossido quatro vezes.

Os olhos fita num painel que estava

Na fronteira parede; a mão do artista

O belo e forte arcanjo debuxara

Que a Satanás venceu; às plantas suas

Jaz o eterno rebelde. Entrava apenas

No magnífico exórdio do discurso

O valoroso Almada, quando a tela

A tremer começou; subitamente

O brilhante Miguel desaparece,

E o diabo que ali prostrado fora

Toma a figura do execrando Mustre,

Levanta-se do chão; e com desprezo,

E com gesto de escárnio e de ameaça,

Os turvos olhos no prelado fita

E a devassa fatal nas mãos sustenta.

Pasmam do caso os circunstantes todos,

Enquanto o forte Almada tropeçando

Nas cadeiras, nos vasos, nas cortinas,

Foge aterrado, uma janela busca,

Dela, sem ver a altura, se despenha,

E de abismo em abismo vai rolando

Até cair da própria cama abaixo.

IV

Ao som da triste queda acorrem todos.

O mísero pastor, aos pés do leito,

Vagos olhos estende aos seus amigos,

Como se inda na mente abraseada

As asas agitara o negro sonho.

A erguê-lo corre o pregador Veloso;

Traz-lhe o douto vigário um copo d'água;

Um as janelas abre, outro da cama os lençóis revolvidos lhe

concerta,

Até que Almada, a fala recobrando,

Do sonho as peripécias e o desfecho,

Entre assustado e galhofeiro conta.

V

Ai, prelado infeliz! Verdade amarga,

Verdade, que não sonho passageiro,

Esbaforido o Lucas te anuncia.

Terrível golpe foi! Largos minutos

Atônito e caído sobre o leito

O prelado ficou, como se vira,

Por efeito de imenso terremoto,

A seus olhos cair toda a cidade.

Não era sonho então! Vencia a causa

O pérfido inimigo! Vai com ele

O imprudente Senado, e sem vergonha

Nem receio o governo ambos protege!

Tais idéias no cérebro do Almada

Confusamente rolam. Vinte vezes

Quer falar, vinte vezes abre a boca

Donde não saem mais que vãos suspiros

VI

Porém a Ira, a quem blasfêmias prazem,

A tempo chega e lhe desata a língua.

Qual da feia carranca de um céu negro,

De águas, coriscos, furacões pejado,

Se vê subitamente sobre a terra

Grossa chuva cair, e em pouco tempo

Encher amplas campinas, praças, ruas,

Tal da boca com ímpetos lhe saem

Injúrias, gritos, ameaças, mortes,

Em borbotões de coração subindo;

E as atentas orelhas alagando:

“Guerra declaro à gente do Senado!

Guerra ao governador! a todos guerra!

E se o céu não tem raios que os fulminem,

Nem abismos a terra que os engulam,

Eu cavo abismos, eu tempero raios,

E essa baixa ralé da espécie humana

Verá que, inda vencido, eu sou Almada!”

VII

Disse, e enfiando as mangas da batina

Que o cortesão Veloso lhe entregava,

Precipitadamente deixa a alcova,

E durante uma hora ou pouco menos

Meditou na desforra. Onça bravia

Numa jaula fechada não se move,

Não fareja com mais impaciência,

Mais aflita não busca uma saída,

Do que o grande prelado pela sala

Cogitando vagava. “Certamente

(Desta sorte o pastor consigo pensa)

O Senado, o Governo e o tolo Mustre

De mãos dadas estão; talvez o caso

Maquinado já fosse há muitos dias

Para me derrubar? Mas que outro golpe

Devo agora empregar naqueles biltres

A não ser enforcá-los? Que remédio,

Se a triunfar de mim eles alcançam,

A grande posição e o grande nome

Desta triste miséria hão de salvar-me?”

VIII

Nisto, o mísero Lucas, que não teve

Jamais o gosto de uma idéia sua,

Pela primeira vez sente brotar-lhe

Na solidão do cérebro vazio

Um alvitre. Ansioso corre a Almada,

Que ao ter notícia deste caso novo,

Com sincera alegria o cinge ao peito

E dos lábios lhe pende inquieto e sôfrego.

Assim no meio das revoltas águas

Do oceano que o vento sacudira,

Já sem forças um miserando náufrago

Olhos e mãos estende à derradeira

Tábua que lhe ficou. “Muito vos deve

(Diz o Lucas) a egrégia companhia

Dos padres de Jesus, e esse colégio

Que ali daquele outeiro vos contempla.

Uma mão lava outra, com finezas

As finezas se pagam. Se do voto

Depender do reitor a vossa causa

(Que é certamente voto de mão cheia

E trunfo superior aos demais trunfos) [20]

Vá sem demora Vossa Senhoria

Dos favores cobrar-lhe o pagamento,

Que a vitória final é toda nossa.”

IX

A tais palavras o prelado sente

Pelas veias coar-lhe um sangue novo,

E toda reviver-lhe a derradeira

Quase extinta esperança. Então nos braços

O salvador amigo recolhendo,

Com lágrimas de gosto assim lhe fala:

“Oh! três e quatro vezes mais ditoso

Que o destemido Aquiles, que da boca

Do divino cavalo ouvia apenas

Anunciar-lhe a sua morte próxima,

Ouço da tua o próximo triunfo!”

X

(continua...)

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