Por Aluísio Azevedo (1882)
E os dois continuaram a altercar meio dessentidos, meio alegres, até que Gregório tomou o chapéu, despediu-se e saiu, sem fazer pazes completas.
Entre o largo de S. Francisco e o ponto dos bondes de Botafogo, onde tinha ele de tomar o das Laranjeiras, ao passar pelo café de Java, descobriu alguém que o fez parar. Encostou-se à parede da Notre-Dame e ficou a olhar muito para um sujeito de idade duvidosa, cabelos e barba exageradamente pretos e lustrosos, olhar vivo, gestos cerimoniosos e chapéu alto.
Era o barão.
A um dos cantos do café a Menina do Bandolim dedilhava as cordas do seu instrumento ao lado do irmão, e parecia inteiramente preocupada com a música.
O barão devorava-a com os olhos, enquanto em outra mesa mais afastada, um rapaz louro, bastante magro, de monóculo, gestos braçais muito angulosos, falava a um grupo de quatro ou cinco amigos que o escutavam com interesse; tratava-se de política revolucionária.
No fim de meia hora, o barão saiu do café, e, depois de alguns passos pelo largo de S. Francisco, falou em particular a um homem que parecia esperar por ele, e seguiu tranqüilamente na direção da rua do Teatro.
Gregório viu tudo isto e principiou a seguir com a vista o novo personagem.
Todavia, a Menina do Bandolim, que acabava de recolher o instrumento a um saco de baeta escura, retirava-se por sua vez com o irmão.
Gregório acompanhou-os a certa distância.
CAPÍTULO VI
PRIMEIRO ENCONTRO
Enquanto Gregório acompanha em distância a Menina do Bandolim,. temos. que ver ainda alguma coisa no café donde ela saiu.
Vários sujeitos se ergueram logo, e lá se foram retirando vagarosamente; outros se deixaram ficar ainda a beber e a dar à língua. A mesa do rapaz louro de monóculo não sofreu a menor alteração; continuava o orador a falar, sempre com loquacidade, e os outros continuavam a ouvi-lo com a mesma atenção.
Dois novos consumidores acabavam de entrar, conversando em voz baixa, muito animadamente. Pelo modo que discutiam, adivinhava-se facilmente que o mesmo interesse os prendia a um só assunto.
Eram ambos de meia idade; um, porém, apresentava ser mais velho e de melhores costumes que o companheiro. Em si nada tinham afinal que pudesse chamar a atenção ao primeiro lance de vista; trajavam vulgarmente roupas baratas e cada qual trazia o seu chapéu de sol, como um símbolo de paz burguesa.
Assentaram-se defronte um do outro, pediram cerveja nacional e prosseguiram na conversa com o mesmo cauteloso empenho.
Deu meia-noite. Os sujeitos que ainda ocupavam as mesinhas do café, foram desaparecendo, até que o dono da casa, dirigindo-se aos dois últimos, lhes participou que desejava fechar as portas.
Então o que parecia menos velho atirou os olhos para o relógio, fez um sinal afirmativo e, sempre a conversar, ganhou com o companheiro a rua.
— É o que lhe digo, segredou-lhe o outro, quando saíam; pode contar comigo! Diga ao comendador que estou pronto para o que der e vier...
— Posso então dizer ao comendador Portela que você quer?!...
— Pode.
— Bem, nesse caso, precisamos amanhã mesmo entender-nos com ele.
Onde nos devemos encontrar?...
— Onde quiser. Aqui no café por exemplo. Está dito. Então até lá.
— Até! respondeu o companheiro,. tomando o largo de S. Francisco. .
Mas voltou pouco depois, para perguntar ainda alguma coisa ao ouvido do outro...
— Não! respondeu este; o melhor é levar você uma boa navalha! Deixemonos de inovações! Cada um com o que aprendeu! — Bem...
E separaram-se.
Entretanto, a Menina do Bandolim seguia pela rua do Teatro, com o passo seguro e apressado de quem não deseja demorar-se pelo caminho. Um homem saindo de uma esquina, pretendeu apoderar-se dela: Gregório porém não lhe dera tempo para isso, colocando-se entre os dois e repelindo o agressor a bengaladas.
A mocinha soltou um grito, chegou-se para o irmão, e deitou com este a correr em direção contrária à que levavam.
— Diga ao barão que ainda não foi desta vez! gritou Gregório para o sujeito a quem espancara, e seguiu o rumo que tomara a sua protegida.
Quando se convenceu de que ela estava fora de perigo, retirou-se para casa.
A menina, com o sobressalto em que ficou na ocasião de ser agredida, não pôde agradecer a generosidade de Gregório, mas guardou bem na memória a sua fisionomia e desde então principiou a distingui-lo intimamente com certa estima.
Só dois meses depois do conflito se tornaram a encontrar. Ela, como nessa ocasião estivesse em meio de uma peça que tocava, limitou-se a cumprimentá-lo com a cabeça e a sorrir para ele de modo reconhecido; mas, terminada a música, pousou o bandolim sobre uma cadeira e, depois de receber a espórtula das mesas, foi agradecer-lhe de viva voz o obséquio que havia recebido.
— Nunca mais lhe sucedeu outra? perguntou-lhe Gregório.
— Não, senhor. Depois daquela vez faço-me acompanhar sempre por mais um parente meu, que me vem buscar aqui.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.