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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— É para maçar! pensava ele indignado. É para fazer um homem perder a paciência! Sei que sou amado por uma mulher que adoro; caio-lhe aos pés, tomo-lhe as mãos, bebo-lhe nos olhos a confissão de sua ternura, — e, a despeito de tudo isso, não consigo estar com ela um só instante; porque essa mulher tem um marido impossível, um marido único, um marido que não a larga, um marido que não vai cuidar de seus negócios, um marido-calamidade! Diabo leve quem inventou semelhante homem!

E o lindo curioso dramático, quando fazia esses raciocínios, ficava colérico, furioso, a passear no lugar em que estivesse, com as mãos nos bolsos, o coração oprimido como por uma injustiça.

— Oh! ela será minha! Isso juro eu! Para que serve então ter talento e ser moço e bonito?...

Às oito horas da noite estava o teatrinho completamente cheio; a orquestra havia já tocado a sua sinfonia, e esperava o sinal para lançar a música com que tinha de principiar a peça. Corria nos espectadores um suspiro de impaciência. Filomena, nervosa, trêmula, esperava atrás de um bastidor que o pano subisse, para mostrar-se ao público, esplêndida na sua roupa de caráter, com o seu papel na ponta da língua. O contra-regra corria de um para outro lado, perguntando se todos estavam prontos e declarando que ia principiar o espetáculo. "Fora de cena! Fora de cena!" O ponto correu a esconder-se no seu buraco. E, na confusão que se fazia na caixa, cada um tratou de tomar o seu lugar. Mas ninguém sabia dar notícias do Borges.

— Ora, onde diabo se foi meter este homem?!... perguntou o contra-regra,

aflito.

Por esse tempo, o Barradinhas, que vira Filomena pela primeira vez sem o marido, meio oculta no vão sombrio de um bastidor, concebeu logo a idéia de aproveitar a ocasião; deu uma volta pelo fundo da caixa, e, surgindo misteriosamente por detrás dela, ia a segurar-lhe a cintura e ferrar-lhe um beijo, quando a bela mulher vira-se de súbito, recua dois passos e solta em cheio no lindo rosto do galã a mais sonora bofetada.

O regente, supondo ser aquela palmada o sinal que ele esperava, rompeu a orquestra, o pano ergueu-se logo, e os espectadores viram o seguinte:

Filomena, sem poder conter as gargalhadas, torcia-se num divã; o

Barradinhas, vestido de calção e meia, procurava uma saída, perseguido pelo Borges, que, em mangas de camisa e botas, de montar, numa cabeleira a escaparlhe pelo pescoço, cercava-o por toda a parte, a doidejar bengaladas. No meio do palco uma das amadoras escabujava com um ataque de nervos, entre o grupo assustado dos curiosos, que iam e vinham, num fluxo e refluxo de encontrões promovidos pelo Borges.

O público, defronte daquela cena tão agitada e tão ao vivo, tomou a resolução de aplaudir; enquanto o dono da casa, repetindo as bengaladas, bramia possesso:

— Pensava que eu não te via, grande velhaco? Não sabias que trago há muito a pulga atrás da orelha, grande maroto?!

O Borges, com efeito, não perdera de vista o galã, na ocasião em que se vestia no camarim, farejou-lhe os planos e tanto bastou para ir, munido de bengala, esconder-se sorrateiramente perto da mulher, por detrás de uma empanada, sem mais pensar no drama, e surdo completamente aos reclamos do contra-regra.

Entretanto, o Barradinhas, vendo que não conseguia fugir pelos fundos do teatro, arremessa-se sobre a orquestra, salta por cima dos rabequistas, enfia pela platéia e ganha a chácara, e afinal a rua, onde se lançou de carreira, na frente do populacho, que a sua estranha roupa de veludo chamava e atraía.

É inútil acrescentar que este fato cortou pela raiz a idéia das representações, e induziu o Borges a fazer um bom conceito da mulher. Esta circunstância em parte o consolou de seus duros infortúnios; mas... desgraçado! uma nova provação já o esperava.

Filomena descobriu que o Urso lhe fazia mal aos nervos, e declarou positivamente não estar disposta a sofrer em casa semelhante bicho.

— Porém, que mal te fez o pobre cão?... perguntou o Borges, sobressaltado com a idéia de separar-se daquele fiel amigo de tanto tempo.

(continua...)

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