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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Cumpre que me deixem tomar fôlego. Este passeio foi longo e árido. Adio, portanto, o mais que tenho a dizer a respeito do Imperial Colégio de Pedro II para um último passeio, que principiará no externato e irá acabar no internato. Até breve.

VIII

Já têm sido muitos os nossos passeios ao Imperial Colégio de Pedro II. Estou ansioso por chegar ao fim deles e, portanto, sem mais preâmbulos, vou prosseguir, e agora ainda mais rapidamente, na descrição, que deixei interrompida, do pavimento superior do externato.

Voltemos sobre os nossos passos, e passando outra vez pelo corredor onde vem acabar a escada da portaria, sigamos para o lado oposto àquele que acabamos de visitar.

Temos aqui logo junto da escada uma sala que deita duas janelas para o segundo pátio do colégio, e que serve atualmente de secretaria deste e do Instituto Comercial.

Contígua a esta sala estende-se um salão com quatro janelas para aquele mesmo pátio exterior, e três outras para o pátio interior do colégio. Servindo até 1857 de dormitório para os alunos internos e de sala de exames no fim dos anos letivos, este espaçoso salão está hoje ocupado pelo Instituto Comercial, e também nele se fazem os concursos e exames para o magistério público e particular de instrução primária e secundária, assim como os exames anuais dos alunos do externato, que são muitas vezes honrados com a presença de S. M. o Imperador.

Entra-se pelo fundo deste salão para um corredor que abre sete janelas para o pátio interior do colégio, e que se comunica com as seguintes salas:

Primeiro, e por uma de suas extremidades, com o vasto salão em que se celebra a distribuição dos prêmios e colação do grau de bacharel.

Segundo, com uma sala chamada do retrato, porque nela existe um retrato do Imperador. Nesta sala se reúne o conselho diretor de instrução pública, e também nela se celebram as congregações dos professores.

Em seguida a esta sala, há um pequeno corredor que vai ter a um quartinho com escada para o forro do edifício, e logo depois há uma escada por onde se desce para o refeitório.

Terceiro, com cinco salas sucessivas, tendo cada uma duas janelas para a Rua da Prainha. As quatro primeiras destas salas serviam dantes para o estudo dos alunos nas horas de silêncio. A quinta era a enfermaria.

O grande corredor termina abrindo uma porta para um pequeno quarto, e outra em frente da do dormitório, dando entrada para um extenso salão com seis janelas para o pátio interior do colégio, salão que servia também de dormitório, e no fim do qual uma escada o separa do salão chamado da música, que aliás já visitamos.

Atualmente existe uma parede de tabique, levantada logo além da escada do refeitório, e essa parede divide em dois o grande corredor. As cinco salas e o salão seguinte estão destinados à habitação do reitor do externato.

Não posso continuar a descrição que vou fazendo da casa do externato do Imperial Colégio de Pedro II, sem libertar-me da lembrança de uma travessura de estudantes.

Mostrei-vos ainda há pouco o quartinho que tem uma escada para o forro do edifício.

Esse forro não tem separações, é um vão imenso, tenebroso, e em alguns pontos de altura muito irregular. É um mundo, em cujo seio caberia mais gente do que na platéia do Teatro Lírico ou no Teatro Provisório, esse monstro de arquitetura que se tem perpetuado provisoriamente.

Em certo ano, que não foi muito depois de 1849, notaram os inspetores do colégio que nas horas de recreio diversos alunos conversavam em português, em voz alta e sem mistério, mas de um modo que eles não podiam compreender.

Os rapazes falavam da cidade de Roma como se nela tivessem estado pouco antes. Marcavam a situação de praças e de ruas a que iam dando nomes de heróis e de heroínas da história romana. Preveniam-se uns aos outros de que no meio da Rua Tarquínio havia um despenhadeiro, de que na travessa de Nero se expunha a dar cabeçadas quem não passasse com cuidado, de que na praça de Graco ou na Rua do Tibre se podia andar perfeitamente.

Os inspetores viam-se perdidos no labirinto daquelas ruas e praças desconhecidas.

Ao mesmo tempo, recebeu o reitor participação de que certos alunos internos gazeavam nas aulas, e que depois apareciam de súbito sem se poder descobrir onde se tinham escondido. O velho porteiro Babo jurava por todos os santos que nenhum aluno interno saía nem entrava pela portaria sem licença.

O abuso repetia-se. A polícia do colégio pôs-se em atividade, e afinal conseguiu ver um aluno interno descendo furtivamente do forro pela escada do quartinho.

Estava descoberta a cidade de Roma.

O reitor impôs segredo à sua polícia, e no outro dia, dando-se por falta de alguns alunos nas aulas, mandou ele trancar a porta da escada do quartinho, e ficou à espera do resultado da peça que pregara aos gazeadores de aulas e viajantes do forro.

Acabadas as aulas, a sineta tocou a recreio, e como por encanto, apareceram todos os alunos internos, sem faltar um só.

(continua...)

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