Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Quando os tupinambás vão às suas roças, não trabalham senão das sete horas da manhã até ao meio-dia, e os muito diligentes até horas de véspera; e não comem neste tempo senão depois destas horas, que se vêm para suas casas; os machos costumam a roçar os matos, e os queimam e alimpam a terra deles; e as fêmeas plantam o mantimento e o alimpam; os machos vão buscar a lenha com que se aquentam e se servem, porque não dormem sem fogo, ao longo das redes, que é a sua cama; as fêmeas vão buscar a água à fonte e fazem de comer; e os machos costumam ir lavar as redes aos rios, quando estão sujas.Não fazem os tupinambás entre si outras obras-primas que balaios de folhas de palma, e outras vasilhas da mesma fôlha a seu modo, e do seu uso; fazem arcos e flechas, e alguns empalhados e lavrados de branco e preto, feitio de muito artifício; fazem cestos de varas, a que chamam samburá, e outras vasilhas em lavores, como as de rota da Índia; fazem carapuças e capas de penas de pássaros, e outras obras de pena de seu uso, e sabem dar tinta de vermelho e amarelo às penas brancas; e também contrafazem as penas dos papagaios com sangue de rãs, arrancando-lhes as verdes, e fazem-lhes nascer outras, amarelas; fazem mais estes índios, os que são principais, redes lavradas de lavores de esteiras, e de outros laços, e umas cordas tecidas, a que chamam muçuranas, de algodão, que têm o feitio dos cabos de cabresto que vêm de Fez.Quando este gentio quer tomar muito peixe nos rios de água doce e nos esteiros de água salgada, os atravessam com uma tapa-gem de varas, e batem o peixe de cima para baixo; onde lhe lançam muita soma de umas certas ervas pisadas, a que chamam timbó, com o que se embebeda o peixe de maneira que se vem acima da água como morto; onde tomam às mãos muita soma dele.As mulheres dêste gentio não cozem, nem lavam; sòmente fiam algodão, de que não fazem teias, como puderam, porque não sabem tecer; fazem deste fiado as redes em que dormem, mas não são lavradas, e umas fitas com passamanes e algumas mais largas, com que enastram os cabelos. As mulheres já de idade têm cuidado de fazerem a farinha de que se mantêm, e de trazerem a mandioca das roças às costas para a casa; e as que são muito velhas têm cuidado de fazerem vasilhas de barro a mão como são os potes em que fazem os vinhos, e fazem alguns tamanhos que levam tanto como uma pipa, em os quais e em outros, menores, fervem os vinhos que bebem; fazem mais estas velhas, panelas, púcaros e alguidares a seu uso, em que cozem a farinha, e outros em que a deitam e em que comem, lavrados de tintas de cores; a qual louça cozem numa cova que fazem no chão; e põem-lhe a lenha por cima; e têm e crêem estas índias que se cozer esta louça outra pessoa, que não seja a que a fez, que há de arrebentar no fogo; as quais velhas ajudam também a fazer a farinha que se faz no seu lanço. As fêmeas destes gentios são muito afeiçoadas a criar cachorros para os maridos levarem à caça, e quando elas vão fora levam-nos às costas; as quais também folgam de criar galinhas e outros pássaros em suas casas. As quais, quando com seu costume, alimpam-se com um bordão que têm sempre junto de si, que levam na mão quando vão fora de casa; e não se pejam de se alimparem diante de gente, nem de as verem comer piolho, o que fazem quando se catam nas cabeças umas às outras; e como os encontra a que os busca, os dá à que os trazia na cabeça, que logo os trinca entre os dentes, o que não fazem para comê-los, mas em vingança de as morderem.
C A P Í T U L O CLX
Que trata de algumas habilidades e costumes dos tupinambás.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.