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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Recordava-se bem. A noite vinha, pesada e escura, envolvendo em lâminas de chumbo o horizonte curto de que se destacavam as torres da Sé, e mais longe as do Carmo, por cima do casario, sujo de pó vermelho, aglomerado em ruas estreitas. Renques de varas cercavam os espaços não edificados, abrigando mal da indiscrição dos transeuntes os poucos limpos quintais, logradouros de galináceos e de não raros suínos, escapos às vistas grossas dos fiscais da Câmara. Quase em frente ao Ver-o-peso, onde atracara a galeota do padrinho, o velho casarão do governo fechava a vasta praça verdejante, em que os sendeiros da polícia montada pastavam sossegados, sob o olhar cobiçoso de numerosos urubus, empoleirados no alto do telhado do Palácio, cujas janelas abertas de par em par pareciam haurir sofregamente a mesquinha aragem do mar, que os coqueiros se transmitiam dum para outro, no balanço indolente das palmas flexíveis. Os últimos raios do sol esbraseavam as vidraças poeirentas da igreja de Santo Alexandre, dando-lhe reflexos metálicos, duros à vista, e punham nas águas do canal uma réstia de luz fugitiva e trêmula. Um acendedor do gás rodeava o largo a passos apressados, armado duma vara, em cuja extremidade brilhava um ponto luminoso que, de longe, parecia um vaga-lume grande, estonteado, a procurar o abrigo dum mato protetor. A medida que o acendedor passava, uma sucessão de pontos luminosos pingava a indecisa claridade do último crepúsculo de manchas pálidas, que se ruborizavam pouco a pouco, dando aos objetos uma saliência fantástica. As árvores da praça pareciam afagar com as ramagens as nuvens negras que lhes passavam por cima, caminhando lentamente para o sul em esquadrão cerrado. Vultos de homens passavam devagar por baixo do arvoredo, projetando na selva a sombra comprida e esguia, e os corvos assumiam proporções enormes, cobrindo os telhados com as asas negras e inquietas.

Do lado do bairro de Santana um surdo murmúrio, o último ruído da agitação industrial, de carroças que se recolhiam, de quitandas que se levantavam, de portas que se fechavam, traduzia o fim do dia para os homens de trabalho que iam repousar, exaustos de calor e de fadiga.

Negras da Costa, com as panelas de tacacá e de quibebe equilibradas sobre as rodilhas de riscado, que em forma de turbante lhes cingiam a carapinha, passavam, balançando os quadris num descadeiramento ridículo, e enchendo o ar de forte catinga suarenta, que se misturava ao aroma irritante do trevo e da manjerona exalado pelo penteado das mulatas, e ao pixé nauseabundo dos resíduos do Ver-o-peso. Raparigas de cor arrastando servilhas de marroquim vermelho ou verde, ofereciam aos olhos dos homens o busto moreno meio nu, apenas velado pela fina camisa de renda, decotada e de mangas curtas, mais excitante do que a nudez. Os negociantes de retalho, em mangas de camisa, pescoço nu, calças de brim, chinelos de tapete ou de couro claro, cavaqueavam com pachorra à porta da loja, ou sentados à beira do canal, sob as árvores quietas, abanando-se com ventarolas de papel. Homens vestidos de casimira, com ares de empregados públicos, avançavam lentamente, opressos pelo alto chapéu de seda, que lhes aquecia a cabeça, e contendo a custo nas mãos úmidas o guarda-chuva previdente e pesado, trocavam, a furto, olhares de inteligência com as mulatas de camisa de renda. Carroceiros portugueses, baixos e barbados, carrancudos, suados, recolhiam-se com as suas carroças de duas rodas, que uma parelha de burros puxava a custo, depois dum dia inteiro de labutar contínuo por um calor de janeiro. Dois ou três padres saíram do colégio descendo a calçada com passo grave, e dirigiram-se para fora da cidade pela estrada de S. José, cujas grandes árvores, salpicadas de luzes, estendiam-se a perder de vista pela frente de rocinhas elegantes e ricas. Caleças, puxadas a dois cavalos, passavam pela porta do Palácio, vindo da Travessa da Rosa e tomavam pela Rua da Cadeia. Os cocheiros estalavam o chicote, e o ruído dos trens punha, por momentos, uma nota alegre na tristeza monótona da praça.

Um instante de repouso se dava na vida da capital provinciana. Ao longe o chiar dos carros de lenha que se retiravam pela estrada fora, ao passo vagaroso dos bois, evocava idéias do sossego e tranqüilidade da roça, aumentando a melancolia vaga que fazia nascer a hora crepuscular da tarde, ao derradeiro eco do toque da Ave-Maria, pausadamente badalada pelo sino grande da sé.

(continua...)

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