Por Inglês de Sousa (1891)
A princípio um grande desapontamento; depois uma desilusão profunda, logo substituída pela reação, do amor-próprio atuando sobre uma consciência maleável e bonacheirona. Ao menos representara bem o seu papel, e não era sua a culpa, se as circunstâncias e só as circunstâncias não lhe haviam permitido realizar realmente os feitos gloriosos, cuja fama vinha tão de improviso engrinaldar-lhe a fronte. Que outro sacerdote nas suas condições, no nosso século prosaico e interesseiro, abandonaria os cômodos duma vigararia sossegada e pouco trabalhosa, para aventurar-se em afanosa missão aos rios do interior da província, povoados de índios e de perigos sem número, passando fomes, frios, vigílias e árduos trabalhos, arriscando a vida, dormindo ao relento, calejando as mãos nos remos, e deixando-se martirizar pelos terríveis insetos das margens dos rios, e tudo por um pensamento de religião e caridade? D. Antônio imaginara a catequese em um grande vapor, o Cristóloro, com todas as comodidades e todas as solenidades; ele padre Antônio, a tentara numa velha montaria, numa casca de noz, privado de todos os recursos. Entretanto D. Antônio era um príncipe da Igreja, e ele um pobre vigário sertanejo, sem posição e sem nome. Que outro padre moço, recém-saído do Seminário grande, tendo diante de si um futuro plácido e tranqüilo de pároco bem pago e bem nutrido, se meteria nos ínvios matos da Mundurucânia, sem outro fim senão o de batizar índios, sem outro auxilio que não fossem o próprio esforço e a própria dedicação! D. Antônio era bispo, e doutrinava nas cidades, comodamente sentado na sua cadeira sagrada... Se padre Antônio de Morais não convertera índio algum, se não fora ferido pelos parintintins, não era porque se poupasse a trabalhos e sofrimentos, mentia a lenda jornalística, mas pela força das coisas, pelas circunstâncias especiais em que se achara, pela impossibilidade material em que se vira de continuar a viagem, depois da fuga de Macário. Mas, em compensação, sofrera tormentos cruéis, escapara de morrer flechado por mundurucus, de ser devorado por feras nos sertões do Sucundari e de ceder a uma moléstia pertinaz, resultante das fadigas e privações aturadas ao serviço do Senhor.
E fazendo justiça aos seus sentimentos, no ardor da sua própria apologia perguntava a si mesmo, sondando a consciência desinteressada, qual fora o móvel que o fizera deixar Silves; porque, tendo perdido a roupa e o farnel da viagem no sítio do Guilherme, teimara em viajar na pequena montaria de pesca, remando como qualquer caboclo; porque passara noites sem dormir; porque suportara com paciência as picadas dos carapanãs; porque se afoitara a dirigir a palavra aos índios do ubá; porque fizera tudo isso? Algum pensamento egoísta o guiava em passos tão arriscados e cheios de abnegação? Não, decerto, respondia a complacente consciência, fora o ardor religioso, o amor da catequese e da civilização do Amazonas que o levara a tais extremos de dedicação e de sacrifício. Logo, concluiu com a lógica admirável aprendida nas lutas com o maior teólogo do Norte; logo nem por estar vivo e são, nem por ter deixado de converter mundurucus, era menos digno dos elogios da fama e da reputação alcançada nas duas províncias que o Amazonas banha.
Satisfeito com este raciocínio do amor-próprio, aplaudido pela consciência, desviou os olhos do zombeteiro s, e dobrou o jornal para o guardar. O cabeçalho do periódico trazia em letras graúdas -Diário do Grão-Pará. A princípio distraidamente, e logo depois com interesse, padre Antônio pôs-se a ler o título, os dizeres permanentes, o ano, a data que trazia o jornal. Era mesmo o Diário do Grão-Pará, então a folha mais importante da província, que espalhara as suas façanhas aos ventos da publicidade.
BELÉM, 20 DE DEZEMBRO DE 18...
A folha estava datada de Belém. Lendo o nome da capital do Pará, o seu contentamento aumentou. Era em Belém, na capital, que se falava dele, na grande cidade comercial que é o empório da riqueza e civilização do Amazonas onde se resume toda a vida intelectual das duas províncias gêmeas.
Padre Antônio de Morais era célebre em Belém. Ali, na grande cidade, falavase nele àquela hora do dia. O Filipe do Ver-o-peso, o reitor do Seminário, o padre Azevedo estariam, talvez, lendo e relendo o famoso artigo, transportados de admiração e cheios de enternecimento.
E súbito lhe veio clara e perfeita a recordação da sua chegada à capital do Pará, quando fora para o Seminário, mandado pelo padrinho. Era então um rapazola de quinze anos, de negras melenas caídas sobre os olhos e de magras formas angulares de camponês robusto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.