Por Inglês de Sousa (1891)
Haveria na povoação um movimento desusado. Os habitantes correriam para o porto, levados duma curiosidade simpática, que faria brilhar a alegria em todos os semblantes. Velhos, moços e crianças andariam apressados, formariam grupos à beira do rio, conversando em voz alta, trocando observações rápidas, comentando o fato extraordinário. O alferes Barriga, ou na sua falta o vereador João Carlos, reuniria a Câmara Municipal para incorporada, com o porteiro e o secretário, encaminhar-se solenemente para o porto do desembarque. O tenente Valadão, com a sua ordenança, guarda nacional de jaqueta e chapéu boliviano que olharia com ar palerma para os cães que lhe ladrassem à farda, destacar-se-ia do grupo das pessoas gradas pelo fitão a tiracolo, verde e amarelo. Os sinos da Matriz repicariam alegremente, tangidos por moleques travessos. D. Prudência, D. Dinildes, D. Eulália, as senhoras todas estenderiam sobre o parapeito das janelas as suas colchas de cores vivas. O professor Aníbal releria o discurso preparado para aquele solene momento, e o Chico Fidêncio, escamado, indeciso, roeria as unhas e fumaria o seu cigarro apagado.
À proa dum ubá selvagem, remado por um legitimo tuxaua, vinha padre Antônio de Morais, o missionário da Mundurucânia.
Assim que chegasse ao presbitério, rompendo a custo a turma de devotos que o queriam admirar e lhe pediam a benção, o Macário se lhe rojaria aos pés confessando o seu macavelismo, contando-lhe tudo, habilitando-o a combinar os fatos e as narrativas...
A Clarinha ficara no Tucunduva, o Felisberto no Paraná-mirim. O velho João Pimenta era como se fosse mudo. O passado ficaria sepultado para sempre no esquecimento. Nem ele próprio se lembrava já. só via o presente, o rio, a floresta, o ubá em viagem, o sol de dezembro acabando de colorir-lhe a face, e o futuro, obscuro ainda, mas envolto em nuvens cor-de-rosa. O sol era forte. Na fronte espaçosa do padre bagas de suor brilhavam. A emoção intensa fazia-lhe subir o sangue ao cérebro. Meteu a mão na algibeira da batina, para tirar o lenço. A mão encontrou o exemplar do Diário do Grão-Pará que lhe dera o capitão Fonseca.
Aquele quadrado de papel, inutilizado pela tinta de impressão e machucado pelas mãos do capitão Mendes da Fonseca para lhe servir de invólucro às botinas, era o lábaro em que se inscrevia a legenda sublime do seu futuro, da sua glorificação. Abriu-o, recostando-se no banco central do ubá, para o reler melhor, e procurou a local em que o seu nome fulgurava numa constelação de letras pretas, que se destacavam da alvura do papel barato. Era na segunda página, em meio da primeira coluna, e todo o resto da folha ficava às escuras, sumia-se numa confusão de caracteres baralhados, ilegíveis no amontoado de tipos duma só cor e duma só forma.
Leu e releu a local, primeiro de relance, na ânsia de chegar-lhe ao fim, para gozar duma vez, a haustos largos, o incenso finíssimo do elogio entusiasta do gazeteiro paraense. Depois, devagar, soletrando as palavras, como o provador que sorve delicadamente o licor precioso e raro, repetiu a epígrafe, e notou com mágoa, que a correção tipográfica não era perfeita. O s final do seu apelido de família estava virado, por um descuido imperdoável do revisor, um erro que lhe irritava os nervos. Desde então, cada vez que corria os olhos pelo artigo, deleitando-se na leitura das frases encomiásticas, de que uma emanação sutil lhe tonteava o cérebro, o maldito erro tipográfico dançava-lhe diante da vista, tomando proporções estranhas e fantásticas, animando-se. Parecia que aquela letrazinha, comicamente retorcida, fazia-lhe caretas e o provocava com esgares bufos, duma ironia mordente e cáustica, que lhe amargurava o gozo inefável da vaidade satisfeita. Era como se no meio dum concerto de hosanas festivais, de entusiásticos aplausos, uma voz discordante lhe atirasse à cara a mentira de toda aquela glorificação em vida, que o Macário em apuros começara e que a parolice balofa e vaidosa do Felisberto, aproveitada por gazeteiros crédulos e desocupados, havia completado. Um assovio estridente, cortando uma salva de palmas, não produziria sobre o ator transportado de júbilo, efeito diverso do que aquele descuido de revisão, aquele cômico s virado, como um clown a dar cambalhotas no tapete, produzia na alma extasiada do missionário da Mundurucânia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.