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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Clarinha não gostou do engenhoso plano que S. Rev.ma lhe expunha entre mil beijos e carícias. Na ingenuidade do seu amor de mameluca, confiante e sincero, não compreendia a necessidade de todos esses mistérios e precauções de que se queria cercar o senhor padre, para esconder aos olhos dos seus paroquianos as relações com uma moça solteira e livre. Um grande pesar lhe causava o receio manifestado por S. Rev.ma de que se conhecessem esses amores que, havia bem pouco ainda, nos delírios da paixão, ele confessara serem a suprema felicidade de toda a sua vida de privações e misérias. Repugnava à sua natureza franca aquela hipocrisia. Dera-se sem reserva, sem pensamento oculto ou interesseiro, sabendo perfeitamente que dava o que tinha de mais precioso, entregando vida, alma e coração àquele belo padre melancólico que a fazia sonhar com Anjos do Senhor. Agora que tudo estava consumado, que lhe importava que todos o soubessem? Não sentia vergonha alguma da sua falta, julgava-a muito natural, e qualquer moça, colocada nas suas circunstâncias, faria a mesma coisa. O seu espírito, elevado pela educação que lhe dera o padrinho acima da sua condição social, não podia simpatizar com os da sua classe, e aspirava a relações mais cultas e finas. Padre Antônio estava tão acima dos brancos que ela conhecera na sua tranqüila e desconhecida existência, como esses brancos, regatões na maior parte, eram superiores aos reles tapuios, semicivilizados, com quem a sua origem e condição a obrigavam a tratar. Como moça de aspirações, escolhera para amante o homem mais distinto que encontrara até o momento em que o coração falou. Se esse homem não podia ser seu marido, que importava isso? A sua avó só casara depois de ter tido a Benedita. Esta não casara nunca, e de seus amores com padre João da Mata nascera a Clarinha, pelo menos, ela assim o' supunha agora. Que havia de admirar que Clarinha seguisse o exemplo da mãe e da avó?

As despedidas foram tristes. Padre Antônio embarcara no ubá, e Clarinha, de pé sobre a ponte do sítio, seguira com os olhos rasos de lágrimas a embarcação que se afastava, levando o eleito do seu coração a lugar donde talvez não voltasse a consolar-lhe a triste viuvez. Mas quando o ubá se sumiu por detrás dum espigão da margem, perdendo de vista o vulto encantador da rapariga, padre Antônio pôs-se a pensar em Silves, nos seus paroquianos, na recepção que o esperava e no futuro que o aguardava lá, bem longe desse paraíso que deixara entre os castanhais sombrios.

Sentado no fundo do ubá, com a cabeça descoberta, tinha os olhos embebidos na vaguidão do espaço, e cismava, silencioso e imóvel, indiferente à marcha da embarcação que o levava ao seu destino.

A narração do capitão Fonseca acalmava os sobressaltos e receios que lhe havia causado a história do Felisberto ultimamente. Tudo lhe indicava que a sua falta não seria descoberta. A força inventiva de Macário o colocara muito alto na opinião dos seus paroquianos e por uma felicidade realmente inaudita, a tola parolice e a pueril vaidade de Felisberto, que muito poderiam ter prejudicado a reputação do padre, a haviam servido maravilhosamente, graças à credulidade tapuia e à azáfama novidadeira do serviçal e católico Costa e Silva. Assim o Felisberto, aquele palerma que ali ia, remando rudemente, com a fisionomia radiante de prazer, prestara a padre Antônio de Morais um relevantíssimo serviço! Padre Antônio não podia deixar de sorrir, lembrando-se da figura que faria o Felisberto proclamando-se neto dum tuxaua, convertido por padre Antônio, o melhor padre santo que jamais fora àquelas remotas paragens do Guaranatuba; e da precipitação com que o Costa e Silva, interpretando mal a meia-língua do Felisberto, não quisera ouvir mais nada e escrevera para o Pará, a transmitir a estupenda notícia, que revelava aos povos a existência de padre Antônio de Morais, o missionário da Mundurucânia.

Sim, o Felisberto lhe prestara um relevante serviço, mas a sua presença em Silves, no mesmo ubá, e naquela ocasião, não seria tão comprometedora como a de Clarinha? O Costa e Silva o reconheceria, puxaria conversa com ele, e o rapaz, que tudo dava para falar, teria tempo de sobra para entrar em pormenores que sacrificariam o efeito das suas primeiras palavras. Já agora, quando estava perto de tocar a meta dos seus desejos, não devia cometer tão grave imprudência como a de aportar a Silves em companhia do falador Felisberto. Procuraria uma boa combinação para deixar o rapaz em algum sítio do Paraná-mirim de Silves, e chegaria à vila acompanhado somente pelo velho tuxaua, cuja estupidez absoluta lhe oferecia absoluta segurança.

Chegaria a Silves, cheio de glória e de prestígio, e desde já imaginava a recepção que lhe fariam os habitantes deslumbrados...

(continua...)

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