Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O Dr. Lino Antônio Rebelo foi um homem que, se não tivesse deixado na terra, esposa, e filhos, teria saudado a morte com um sorriso. Gasto na mocidade pelas privações, não teve forças para chegar à velhice.
Era natural de Buenos Aires, mas aos dois anos de idade já estava no Rio de Janeiro, onde estudou humanidades. Passou à Europa, e tomou em Bolonha o grau de doutor em ciências naturais e em matemáticas.
Em 1836, foi o D. Lino Rebelo nomeado lente substituto e logo depois proprietário da escola de arquitetos medidores da província do Rio de Janeiro, e um pouco mais tarde, professor de matemática do Imperial Colégio de Pedro II. Extinta, porém, aquela escola, teve de contentar-se com o limitadíssimo ordenado que lhe dava o colégio, e que era muito menos que os ordenados dos atuais professores.
Sobrecarregado de família e sem fortuna, e sem algum outro meio de subsistência, o Dr. Lino lutou oito anos com a mais cruel pobreza. Tinha talento e instrução, era de reconhecida probidade, e sofria profundamente ainda mais pelas privações que experimentavam sua mulher e seus filhos do que pelas próprias. Ainda era moço em anos, e já o seu aspecto era de um velho afável no trato, sorria às vezes. Mas o seu sorriso era tão triste, que fazia entristecer.
Em 1852, o governo imperial melhorou a sorte do Dr. Lino, nomeando-o inspetor da tesouraria da província de Minas Gerais. Mas, cinco anos depois, o Dr. Lino Antônio Rebelo deixava de existir.
A cadeira de francês foi ocupada primeiro por Francisco Maria Piquet, depois pelo Sr. Dr. Fernando Francisco Leça, que teve a sua jubilação, e o é agora pelo Sr. João Francisco Halbout, tendo também servido como professores suplementares o bacharel Antônio Gonçalves Silva e o Sr. bacharel Batista Caetano de Almeida Nogueira.
O colégio tem tido por professores de grego os srs. Dr. Joa quim Caetano da Silva, barão de Tautphoeus, e o Sr. Dr. Guilherme Teodoro Schieffler, que o é atualmente.
Foram professores de alemão o barão de Planitz, o Sr. barão de Tautphoeus, George Gael, e o é agora o Sr. Bertoldo Goldschmidt.
O barão de Planitz era um homem de instrução vasta e profunda e um professor abalizado; e apesar de algumas generalidades, gozava do respeito devido à sua ilustração e capacidade, e era muito estimado dos alunos.
Incansável no estudo e no trabalho, e por isso sofrendo não pouco em sua saúde, tinha o barão de Planitz dias de mau humor em que facilmente se encolerizava, e então chegava às vezes a parecer menino.
Uma vez, estava ele lecionando, e empenhado em fazer compreender completamente um ponto da lição aos seus alunos, levantou-se, tomou o giz, foi à pedra, escreveu o que julgou preciso, e empunhando a flecha, começou a explicar a questão. Mas uma mosca impertinente veio pousar no nariz do professor, que a espantou debalde, porque a mosca fugia e voltava, ora a pousar-lhe na face, ora no queixo, ora outra vez no nariz. Os alunos sorriam, vendo a impaciência do barão de Planitz, que, acabando por desesperar, lançou-se atrás da mosca pela sala fora, procurando matá-la a golpes de flecha.
Os alunos ficaram sem lição, e guardaram a lembrança da história da mosca.
Era, porém, tão real e notável o merecimento do barão de Planitz, que, ainda mesmo com esta e algumas outras excentricidades, não perdeu jamais a consideração que soubera desde o princípio conquistar.
A sala, que foi sacristia, oferece-nos ao fundo uma porta que dá passagem para uma escada, por onde se vai ter à casa que era da habitação dos reitores.
No centro do edifício alarga-se um belo pátio quadrado a que prestam sombra cerca de uma dúzia de graciosas amendoeiras, e onde estão dispostos os meios necessários para os exercícios ginásticos, sendo, além disso, um lugar de recreio para os alunos, de que atualmente só se aproveitam os meio-pensionistas.
Para este pátio quadrado apresenta o edifício quatro faces. Da que fica ao lado direito da entrada acabei de falar há pouco, no que diz respeito ao pavimento inferior de que estou tratando.
As faces principais e do lado esquerdo, sempre do pavimento inferior, são formadas por uma varanda defendida por grades de ferro.
Na última face, enfim, abrem janelas para o pátio duas salas de espera dos professores e duas salas de aulas separadas por um pequeno corredor. E na face do lado esquerdo a sala do refeitório, que é vasta e asseada, e uma outra sala de aulas.
Na última face, enfim, abrem janelas para o pátio duas salas de aulas também separadas por um corredor.
Lembrarei agora os nomes dos professores cuja voz se tem feito ouvir nestas salas.
De gramática portuguesa foram professores o Sr. Dr. Joaquim Caetano da Silva e depois o Sr. Dr. João Dias Ferraz da Luz, que ocupou esta cadeira quando ainda era estudante da Escola de Medicina do Rio de Janeiro. Atualmente, e desde muitos anos, ensina esta matéria o Sr. Gabriel de Medeiros Gomes, professor de latim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.