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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— E o Sr. José Antônio Pereira, moço de muito bons costumes, amigado com a cunhada, todavia. Hoje, em Silves, não há como pregar petas e inventar calúnias, para ser graúdo. Os homens sérios já não valem nada! O Reverendíssimo precisa muito de voltar para lá. Os costumes estão relaxados, que é uma pouca-vergonha. O Mapa-Múndi deu de chicote na irmã, a D. Dinildes, porque a encontrou com o Manduquinha Barata. O Macário vive com a Luísa, o Valadão e o João Carlos brigaram em casa de D. Prudência, o José Pereira está roubando o governo. Silves já não vale nada. Os homens sérios são escorraçados. Só um vigário do caráter e austeridade de V. Rev.ma a poderá salvar da depravação em que se acha a vila.

E com gesto ameaçador, mostrando a mão fechada à vila invisível, murmurou com rancor:

— Bandalheira, pouca-vergonha!

Embarcou na galeota, depois de despedir-se de S. Rev.ma. Quando ia penetrar na tolda, voltou-se de repente para o padre que ficara na praia, seguindo-o com o olhar:

— É verdade, quer ver o tal periódico?

— Que periódico?

— O Diário do Grão-Pará, tenho aqui debaixo da tolda, embrulhando as botinas.

A galeota partiu, deixando o vigário de Silves, absorto na leitura da seguinte local :

"PADRE ANTÔNIO DE MORAIS. - Um estimado negociante de Silves, o Sr. Costa e Silva, achando-se de passagem em Maués, ali encontrou noticias deste arrojado missionário, que toda a gente supunha morto às mãos dos parintintins, segundo a narrativa do seu companheiro de viagem. Parece que o ardente vigário de Silves escapou milagrosamente a uma morte afrontosa, e tem prosseguido na gloriosa tarefa de catequizar os índios da Mundurucânia. Diz-se mesmo que padre Antônio conseguiu trazer ao aprisco do Senhor, entre outras ovelhas desgarradas, um célebre tuxaua, nomeado pelas suas façanhas guerreiras, e entre os pobres moradores do Canumã temido pelas suas muitas tropelias. Se isso é verdade, como assegura o nosso informante, digno de todo o crédito, padre Antônio tem prestado e está prestando inolvidáveis serviços à religião e à civilização do Amazonas. Não conviria que o governo mandasse alguém procurar na Mundurucânia esse novo Anchieta, que estará talvez, à hora em que escrevemos, perdido nos sertões do Sucundari, sem meios de regressar à sua paróquia? O governo não deve ficar indiferente à sorte dum sacerdote que tão digno se tem feito da estima e veneração dos seus contemporâneos.

"Padre Antônio é nosso compatrício. Filho do nosso amigo senhor capitão Pedro Ribeiro de Morais, uma das influências conservadoras do Igarapé-mirim, fez brilhantes estudos no Seminário maior, sendo o mais aproveitado discípulo do reverendo padre Azevedo, o maior teólogo do Norte do Império."

A velha tapuia do sítio de Tucunduva facilmente aceitou a proposta que lhe fizeram de hospedar a Clarinha, enquanto o avô e o irmão iam levar o senhor padre a Silves. O plano de S. Rev.ma era procurar em Silves um sitiozinho, em que pudesse estabelecer a afilhada de padre João da Mata longe das vistas do Chico Fidêncio e dos falatórios invejosos do beatério, numa pequena situação poética e retirada como o sítio de João Pimenta, uma reprodução do encantador bom-retiro que o seu amestrado colega soubera criar à margem do furo da Sapucaia, entre castanheiros gigantescos e sombrios e laranjeiras floridas, dum perfume afrodisíaco de noivado. Aí poderiam viver horas esquecidas, afastados do bulício da freguesia, a salvo dos comentários azedos da grei dos pedreiros-livres, com o recém-converso Chico Fidêncio à frente; ai libaria ele o néctar delicioso do amor daquela mameluca feiticeira, cujas mãos delicadas e polpudas entrelaçariam olorosas flores aos louros da coroa de glória com que a gratidão popular lhe enalteceria a fronte inteligente. Um sonho encantador que S. Rev.ma comunicou à amante, com muitas carícias e promessas, à sombra de uma goiabeira do porto, afirmando que por pouco tempo a deixava naquele exílio de Tucunduva, e não tardaria em a mandar buscar, se não pudesse vir pessoalmente, para não despertar suspeitas. Do Tucunduva a Silves havia razoável distância. A largura do Amazonas, interposta entre o sítio do rio Ramos e o Paraná-mirim do Saracá, favorecia o mistério. Mais tarde, quando a curiosidade pública estivesse amortecida e os silvenses, fartos de olhar e admirar o seu ressuscitado vigário, tivessem voltado aos seus lazeres ordinários, a Clarinha, envolta sempre em romanesca sombra, iria para algum sítio do rio Urubus ou mesmo do lago Saracá, onde o padre a visitaria a miúdo, salvando as aparências, e não acordando a desconfiança do Chico Fidêncio do sono profundo em que a mergulhara a inventiva feliz do prestimoso Macário.

(continua...)

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