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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O Dr. Maia era natural da Bahia, onde nasceu a 8 de agosto de 1808, e onde fez os seus estudos de humanidades. Em 1823, foi com toda a sua família para Portugal, e aí se matriculou na Universidade de Coimbra. Tinha já obtido o grau de bacharel em filosofia natural, quando rebentou a guerra civil entre os constitucionais e os absolutistas. O jovem brasileiro trocou o livro pela espada, e alistando-se entre os acadêmicos voluntários, bateu-se nobremente pela causa da liberdade, e vencido e perseguido, fugiu para escapar aos algozes do terrível usurpador. Enfim, a 2 de setembro de 1833, obteve o diploma de doutor em medicina pela universidade de Paris, e, tornado à pátria, consagrou-se durante vinte cinco anos ao cultivo da medicina, das ciências naturais e das letras. Foi um dos diretores do Museu Nacional e um dos professores da criação do Imperial Colégio de Pedro II. E nos jornais da sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e da Academia Imperial de Medicina, de que foi por muito tempo redator, e na Minerva Brasileira, revista científica e literária, que o teve por fundador e redator-em-chefe, deixou-nos interessantes trabalhos. O Sr. Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia morreu no dia 21 de novembro de 1859.

Suspendo aqui a cansada relação dos professores do colégio, que, aliás, ultimarei no próximo passeio.

E ainda para completar a descrição do pavimento inferior do edifício que estamos visitando, me era necessário levar-vos por um corredor que começa à porta da sala do refeitório, à grande e excelente cozinha do colégio, além da qual se encontram a sala de banhos e quartos de criados, que abrem portas para um segundo pátio. Creio, porém, que podemos dispensar-nos de estender até lá o nosso passeio de hoje, que já se tem prolongado não pouco, convindo portanto dá-lo por acabado aqui.

VII

Não temos, creio eu, a menor necessidade de andar correndo. Vivemos, é certo, no século do vapor e da eletricidade, que vieram dar aos homens admiráveis asas, ainda mais leves que as do beija-flor e mais possantes que as da águia. Mas ninguém se lembra de passear em fios elétricos ou em cavalos de vapor. Ao contrário, é de regra absoluta que quem passeia não tem pressa, e quem tem pressa não passeia.

Estou, portanto, no meu direito, demorando-me ainda no pavimento térreo do externato do Imperial Colégio de Pedro II, para, ao lançar a última vista de olhos pelas salas de aulas, recordar os nomes dos professores que nelas lecionaram e lecionam, e especialmente os daqueles que já não são deste mundo.

A cadeira de retórica do Imperial Colégio de Pedro II foi ocupa da pelos srs. Dr. Joaquim Caetano da Silva, Tibúrcio Antônio Craveiro, Santiago Nunes Ribeiro, Dr. Francisco de Paula Meneses, e o é atualmente pelo Sr. Dr. cônego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro.

Santiago Nunes Ribeiro era natural do Chile. Vítima de uma borrasca política, viu-se ainda menino obrigado a expatriar-se, e acompanhando um seu tio e preceptor, acolheu-se ao Brasil, que lhe abriu o seio tranqüilo, benfazejo e amigo.

O tio de Santiago Nunes Ribeiro era um religioso de grande ilustração, e foi o primeiro mestre do talentoso sobrinho. Mas o religioso tinha, além da fé do altar, a fé do coração, e como disse o Sr. Porto Alegre, aquela cedeu a esta, o patriota foi maior que o frade e o proscrito sucumbiu à saudade da terra natal e aos pesares, deixando sem recursos e na mais completa orfandade o mísero sobrinho, ainda de menor idade.

O órfão de pátria e de benfeitor foi pedir pão ao comércio, e serviu de caixeiro em uma casa comercial da cidade do Rio de Janeiro durante os primeiros anos da sua juventude. Trabalhava.

Talvez me observem que estou escrevendo uma carta de nomes, paciência. Quero de boa vontade sofrer agora a pecha de maçante, para deixar informações que algum dia possam servir.

E bem quisera estar habilitado para escrever algumas palavras a respeito de cada um dos professores que a morte roubou ao colégio. Na impossibilidade, porém, de o fazer completamente, lembrarei ao menos o merecimento daqueles de quem tenho informações.

E os professores e ex-professores que ainda vivem contentem-se com a simples menção de seus nomes, e não tenham pressa de achar-se no caso dos outros.

A cadeira de ciências matemáticas foi ocupada pelo Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia, Sr. Dr. João Dias Ferraz da Luz, sendo ainda estudante de medicina, Dr. Lino Antônio Rebelo, Sr. Dr. bacharel Antônio Machado Dias, e o é hoje pelo Sr. José Ventura Bôscoli.

Do ano de 1856 ao de 1861, serviram sucessivamente de pro fessores suplementares de matemáticas o Sr. Dr. Saturnino Soares de Meireles, o bacharel João Antônio Gonçalves, os srs. bacharel Eduardo de Sá Pereira de Castro, bacharel Manuel Buarque de Macedo Lima, Dr. Pedro José de Abreu, Dr. José da Silva Lisboa, bacharel Antônio Maria Correia de Sá, e serve hoje o Dr. João dos Santos Marques.

(continua...)

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