Por Inglês de Sousa (1891)
— É verdade, tornou o capitão. Fui exonerado, e logo vi que esta notícia causaria espanto a todo o homem inteligente. O miserável do José Pereira, que eu tinha deixado tomando conta da coletoria quando fui aos castanhais para o S. João, armou-me uma tal intriga, o safado - perdoe-me o Reverendíssimo a expressão que por mais empenhos que metesse, por mais explicações que desse, o cônego Marcelino, meu inimigo figadal, aproveitou a ocasião e fez-me aquela desfeita, e ainda por cima teve o descoco de dizer que a coisa ficava só na demissão porque eu tinha bons padrinhos!
Dos lábios contraídos pelo despeito escapou-lhe um insulto, reprimido em meio.
— Filho da...
E emendou:
— Filho da mãe!
Depois fazendo um esforço para conter-se continuou por largo tempo vazando a bílis acumulada desde que regressara dos castanhais, sem atender a que estavam de pé, ele, o padre, o Felisberto e a tia Gertrudes, e que teriam naturalmente alguma coisa .que fazer. Relatou miudamente as intrigas de José Pereira, o tal moço de bons costumes que, o Fonseca sabia agora positivamente, vivia amigado com a cunhada; os passos que dera para se justificar, a insistência do cônego Marcelino em o demitir, a situação falsa em que esse fato o colocara em Silves, a perda da confiança do Elias, a necessidade de apurar capitais para satisfazer os credores exigentes e a dura contingência em que se via de descer da sua dignidade para vir correr os rios do sertão, fazendo o comércio de regatão, muito rendoso de certo, mas indigno de um homem que era o verdadeiro chefe conservador de Silves, que se correspondera com o João Alfredo e com o cônego Siqueira...
— E tudo isto por quê? acrescentou com profunda amargura. Tudo porque tenho a infelicidade de ser casado com uma mulher louca e porque V. Rev.ma lembrou-se de catequizar mundurucus. Se a tal D. Cirila, que o diabo carregue, não se tivesse lembrado de ir passar o S. João nos castanhais, o José Pereira não teria entrado no exercício da coletoria e não saberia o que soube. E se V. Rev.ma não tivesse-se lembrado dos mundurucus, teria ficado em Silves, e teria-me valido, afirmando ao cônego Marcelino que eu não sou pedreiro-livre, fui sempre muito bom católico, e até quis publicar a Aurora cristã, com o professor Aníbal Americano. Abandonaram-me, deixaram-me só. As intrigas daquele patife do José Pereira ganharam a causa, fui demitido e por muito favor não me processaram. O mundo anda agora assim, cada um cuida de si. A senhora D. Cirila, continuou com um despeito visível, sacrificou-me aos castanhais, onde eu, seguindo o conselho de V. Rev.ma, não queria ir, e bem me arrependi de lá ter ido! V. Rev.ma abandonou-nos pelos mundurucus! O Chico Fidêncio infamou-me com o seu contágio. O semvergonha do José Pereira furtou-me o lugar. O Elias desconfiou de um freguês velho que tanto lhe tem dado a ganhar. O cônego Marcelino esqueceu-se de que eu era um correligionário firme e leal que sempre acompanhou o governo. O inspetor do tesouro não se lembrou de que o hospedei como a um príncipe quando esteve em Silves. O João Alfredo, que persegue os bispos, conserva na presidência um padre carola e perseguidor dos maçons! E até o miserável do Costa e Silva lembra-se de me querer tirar a freguesia do sertão!
E resumiu num largo gesto o egoísmo de todos os homens:
— Tolo é quem neles se fia.
E como querendo esquecer o desgosto que lhe causava a recordação de tantas ingratidões, voltou-se para a velha tapuia:
— Tia Gertrudes, é pegar ou largar. Quer o negócio ou não quer? Não posso perder tempo e por isso avie-se.
E como a velha hesitasse, encorajada pela presença do padre e do Felisberto, o capitão decidiu:
— Não fazemos nada, vou-me embora. Deixe que o seu peixe apodreça, e o seu cacau pendure-o ao pescoço.
E, enfadado, tomou o caminho do porto, acompanhado de padre Antônio, que receava o encontro dele com a Clarinha. Mas o capitão Fonseca tinha o espírito por demais atribulado para se ocupar com as pessoas que estavam no ubá. Ao despedir-se de S. Rev.ma, torturado pela idéia da sua decadência, disse-lhe:
— Sabe quem está agora muito graúdo em Silves? É o Macário, aquele sujeito que eu vi levar bofetadas do padre José, que Deus tenha! Não cabe em si de contente, o malandro! É até um escândalo com a Madeirense todos os dias pelo quintal! A Chica da Beira do Lago já teve o arrojo de dizer que ele quando quer um milagre, é só pedir por boca. E vai ser condecorado! Enfim, em Silves quem vale hoje é o Macário.
E acrescentou, depois de uma pausa:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.