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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Uma porta igual às da igreja, conservando ainda, como recordação do passado, as armas do príncipe dos apóstolos, dá entrada para a portaria do colégio, pequena, porém muito decente.

A portaria do Imperial Colégio de Pedro II era o mundo do velho Manuel Babo Rebelo, porteiro contratado no princípio, talvez em janeiro de 1838, e conservado nesse lugar até o último dia de sua vida, no ano de 1855.

O velho Babo era a crônica viva da casa. E sabia e contava a história de cada pedra que servira para as obras do colégio, desde 1838. Tinha de cor o número das visitas que o ministro Vasconcelos fizera ao estabelecimento, quando se ocupava em fundar e dar vida e calor à instituição.

Babo era natural de Portugal, viera para o Brasil e chegara à Bahia, tendo apenas nove anos de idade. Um negociante o recebeu, e o pobre menino foi tratado e educado como filho pela família brasileira cujo chefe o adotara. O velho porteiro relatava tudo isso duas ou três vezes por dia. E de cada vez que o fazia, era certo vê-lo chorar e concluir dizendo: “A Sra. D. Maria foi minha mãe e queria que eu a chamasse minha mãe!”

Pelo menos, era um homem agradecido.

Mas era também um pouco original, e levava a virtude da economia até àquele extremo em que ela se torna em vício.

O velho Babo sustentava que, para conservar a saúde, lhe eram necessárias as três seguintes condições: tomar banhos gerais de água fria, ter os pés muito frios de manhã e passear muito a pé durante o dia. E eis aqui como ele satisfazia essas condições, e especialmente a última, sem sair do colégio.

Às dez horas da noite, o Sr. Babo deitava-se e dormia a sono solto até às três horas da madrugada – Levantava-se, tomava um banho geral de água fria, e depois, conservando-se descalço sobre os tijolos de mármore da portaria durante meia hora, começava então a espirrar com estrondo tal que despertava às vezes os alunos. Depois de duas dúzias de espirros, e às vezes mais tinha o homem os seus pés frios e ficava contente.

Em seguida, e durante o dia todo, embora com intervalos multiplicados, efetuava-se o exercício de passeio a pé.

Das quatro às cinco e meia da manhã, o velho Babo passeava em toda a extensão da varanda que por dois lados cerca o pátio interior do colégio, e ainda pelo mesmo pátio, e no correr do dia, passeava na sua pequena portaria.

E passeava sempre com passo acelerado, com a cabeça baixa, olhando para o chão e contando as pisadas.

Ao cair da tarde, somava os passos que tinha dado durante o dia, e calculando como cumpria, declarava, alegre e risonho, que tinha andado a pé três ou quatro léguas!

O espírito de economia do velho Babo pode-se apreciar bem na seguinte observação.

Este célebre porteiro entrou para o serviço do colégio em 1838, trazendo uma casaca bastante usada e uma casaca em muito bom uso. Desde as seis horas da manhã até à noite, sempre estava de casaca, e morreu em 1855 sem ter mandado fazer uma casaca nova!

Entretanto, em l854, foi obrigado a abandonar a sua casaca velha em conseqüência de uma terrível catástrofe.

Estavam-se caiando de novo algumas paredes do colégio. O zeloso porteiro fiscalizava por sua vontade o trabalho, quando em um momento sinistro o caiador estremeceu na escada, e tão desastradamente se houve, que despejou sobre o velho Babo um banho, um dilúvio de água de cal.

Não houve meio de regenerar-se a casaca inundada.

À parte este defeito, que, aliás, a ninguém era nocivo, Manuel Babo Rebelo tinha qualidades que o recomendavam. Gozou sempre da confiança e da estima dos chefes do colégio e dos professores. Era muito querido dos alunos, e não menos dos empregados da casa.

A portaria tem ao lado esquerdo uma escada que nos levará ao andar superior.

Ainda no mesmo lado, uma pequena porta que dá entrada para uma saleta de espera onde se reúnem e descansam os professores, e no fundo uma grande porta de ferro que se abre para o interior do colégio.

Entrando-se pela porta de ferro, encontra-se à mão direita a vigilante sineta que marca as horas de descanso e de trabalho, e logo em seguida entra-se para o corredor da esquerda da igreja, que serve para ponto de espera, onde se ajuntam os alunos externos. Passa-se deste largo corredor para a antiga sacristia, que é hoje a sala das aulas das ciências naturais.

O primeiro professor de ciências naturais no Imperial Colégio de Pedro II foi o Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia. Em 1855, esta matéria passou a ser ensinada em duas cadeiras, a primeira de zoologia e botânica, que continuou a cargo do Dr. Maia, e a segunda de física e química, para a qual foi nomeado o Sr. Dr. Saturnino Soares de Meireles. Atualmente essas cadeiras estão a cargo de outros cavalheiros, porque o Dr. Maia faleceu, e foi substituído no colégio pelo Sr. Dr. José da Silva Lisboa, e o Sr. Dr. Meireles passou a professar a mesma matéria na Academia de Marinha, tomando o seu lugar no colégio o Sr. Dr. José Maria Correia de Sá e Benevides, que aí tomara o grau de bacharel em

Letras.

(continua...)

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