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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

C A P Í T U L O CXLVI
Em que se declara a natureza dos caran-guejosdo-mato.


Andei buscando até agora onde agasalhar os caranguejos-do-mato, sem lhes achar lugar cômodo, porque para os arrumar com os caranguejos do mar parecia despropósito, pois se eles criam na terra, sem verem nem tocarem água do mar; e para os contar com os animais parece que também não lhes cabia esse lugar, pois se parecem com o marisco do mar; e por não ficarem sem gasalhado nestas lembranças, os aposentei na vizinhança do marisco de terra, ainda que se não criam na água estes caranguejos, mas em lugares úmidos por todas as ribeiras.A estes caranguejos da terra chamam os índios guoanhamu; os quais se criam em várzeas úmidas, não muito longe do mar, mas na vizinhança da água doce, os quais são muito grandes e azuis, com o casco e pernas mui luzentes; os machos são muito maiores que as fêmeas, e tamanhos que têm os braços grandes, onde têm as bocas com tamanhos bicos nelas, e tão compridos e voltados que faz com ele tamanha aparência como faz o dedo demonstrativo da mão de um homem com o polegar, o que é tão duro como ferro, e onde pegam com esta boca não largam até os não matarem. Criam-se estes caranguejos em covas debaixo da terra, tão fundas que com trabalho se lhe pode chegar com o braço e ombro de um índio metidos nela, onde os mordem mui valentemente. No mês de fevereiro estão as fêmeas, até meados de março, todas cheias de coral mui vermelho, e têm tanto no casco como uma lagosta, o qual e tudo o mais é muito gostoso; tiram-lhe o fel ou bucho que têm, cheio de tinta preta muito amargosa; porque se se derrama faz amargar tudo e por onde ele chegou.No mês de agosto, que é no cabo do inverno, se saem os machos e fêmeas ao sol, com o que anda a terra coberta deles; no qual tempo se saem ao sol passeando de uma parte para outra, e são então bons de tomar; e nesta conjunção andam os machos tão gordos que têm os cascos cheios de uma amarelidão como gemas de ovos, os quais são mui gostosos à maravilha, mas são carregádos; e para os índios os tirarem das covas sem trabalho, tapam-nas com um molho de ervas, com o que eles abafam nas covas, e, se vêm para tomar ar, e por não acharem caminho desimpedido, morrem à boca da cova abafados. Algumas vezes morreram pessoas de comerem este guaiamu, e dizem os índios que no tempo em que fazem mal comem uma fruta, a que chamam araticumpaná, de que já fizemos menção, a qual é peçonhenta.Daqui por diante se trata da vida e costumes do gentio da terra da BahiaJá era tempo de dizermos quem foram os povoadores e possuidores desta terra da Bahia, de que se tem dito tantas maravilhas, e quem são estes tupinambás tão nomeados, cuja vida e costumes temos prometido por tantas vezes neste tratado, ao que começamos satisfazer daqui por diante.

C A P Í T U L O CXLVII
Que trata de quais foram os primeiros povoadores da Bahia.


Os primeiros povoadores que viveram na Bahia de Todos os Santos e sua comarca, segundo as informações que se têm tomado dos índios muito antigos, foram os tapuias, que é uma casta de gentio muito antigo, de quem diremos ao diante em seu lugar. Estes tapuias foram lançados fora da terra da Bahia e da vizinhança do mar dela por outro gentio seu contrário, que desceu do sertão, à fama da fartura da terra e mar desta província, que se chamam tupinaés, e fizeram guerra um gentio a outro tanto tempo quanto gastou para os tupinaés vencerem e desbaratarem aos tapuias, e lhos fazerem despejar a ribeira do mar, e irem-se para o sertão, sem poderem tornar a possuir mais esta terra de que eram senhores, a qual os tupinaés possuíram e senhorearam muitos anos, tendo guerra ordináriamente pela banda do sertão com os tapuias, primeiros possuidores das faldas do mar; e chegando à notícia dos tupinambás a grossura e fertili-lidade desta terra, se juntaram e vieram de além do rio de São Francisco, descendo sôbre a terra da Bahia que vinham senhoreando, fazendo guerra aos tupinaés que a possuíam, destruindo-lhes suas aldeias e roças, matando aos que lhe faziam rosto, sem perdoarem a ninguém, até que os lançaram fora das vizinhanças do mar; os quais se foram para o sertão e despejaram a terra aos tupinambás, que a ficaram senhoreando. E estes tupinaés se foram pôr em frontaria com os tapuias seus contrários, os quais faziam crua guerra com fôrça, da qual os faziam recuar pela terra adentro, por se afastarem dos tupinambás que os apertavam da banda do mar, de que estavam senhores, e assim foram possuidores desta província da Bahia muitos anos, fazendo guerra a seus contrários com muito esforço, até a vinda dos portugueses a ela; dos quais tupinambás e tupinaés se têm tomado esta informação, em cuja memória andam estas histórias de geração em geração.

C A P Í T U L O CXLVIII
Em que se declara a proporção e feição dos tupinambás, e como se dividiram logo.

(continua...)

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