Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
É bem certo que o tal direito de antiguidade torna-se uma verdadeira burla sempre que o patronato se resolve a tomar a peito fazer saltar um mocinho de bigode preto por cima de um veterano de barbas brancas. Mas o patronato é fidalgo de sangue azul, não se abaixa a passear comigo e, portanto, livre dele, posso ainda prosseguir, andando direito.
Além disso, ao internato não se pode ir calcante pede sem grande fadiga e incômodo. Enquanto, pois, mando preparar os carros que nos devem levar ao Engenho Velho, vamos à Rua Larga de S. Joaquim fazer a nossa visita ao externato.
No fundo da Rua Larga de S. Joaquim se levanta a igreja consagrada ao santo desse nome, e tem pelo seu lado direito a Rua Estreita de S. Joaquim, ligando-se pelo esquerdo ao antigo seminário, depois Imperial Colégio, e hoje externato do Imperial Colégio de Pedro II.
Aqui, acha ainda fundamento para cantar vitória a teoria das compensações.
A Rua Larga de S. Joaquim é tão notável pelo que lhe sobra em largura como pelo que lhe falta em comprimento. E a Estreita, apertada como um beco, sombria e úmida, estende-se bastante, como tantos outros mesquinhos e feios corredores do labirinto chamado cidade velha.
Não disputo à Rua Larga de S. Joaquim o seu qualificativo larga, pois que bem o merece. Mas o nome de S. Joaquim protesto que já o perdeu de direito.
S. Joaquim é desde algum tempo tão denominador ou dono daquela rua como o Sr. D. João VI foi Imperador do Brasil desde 1825, em que declarou que conservava para si esse título, até o ano seguinte, em que morreu, ou como ainda há pouco era Vítor Manuel, Rei de Chipre e de Jerusalém.
S. Joaquim foi sem a menor cerimônia despedido da sua igreja, e provavelmente estimou sê-lo, porque ela já tinha perdido um certo encanto de puro amor que a recomendava.
Em frente da igreja de S. Joaquim mostrava-se no Campo da Aclamação, dantes chamado de Santana, a pequena e humilde igreja desta Santa, que foi, como todos sabem, esposa daquele Santo.
Em um dia de progresso material, veio a estrada de ferro de D. Pedro II, declarou que precisava do lugar em que estava a igreja de Santana, e em 1856 foi a santa arrancada do seu altar e depois levada para uma capela provisória que se levantou sobre os alicerces que tinham sido destinados para uma cadeia na cidade nova.
Os velhos e santos esposos foram assim ainda mais separados do que estavam, e por conseqüência, não devia ser grande o pesar de S. Joaquim, quando aquela mesma estrada de ferro resolveu estender os seus trilhos até à praia, passando exatamente pelo lugar ocupado pela sua igreja.
Não sei se ainda se projeta executar esse plano. Certo é, porém, que S. Joaquim abandonou a sua igreja, condenada pelo progresso material do país, e hoje tem a sua veneranda imagem no altar da capela do internato.
A igreja tem duas torres e é toda de sólida construção de cantaria; e se não é admirável debaixo do ponto de vista arquitetônico, pelo menos não se ressente de falta de elegância apropriada.
Três grandes portas com portais de pedra davam entrada para o templo. A primeira, que fica à direita, para um largo e vasto corredor que se estende com todo o comprimento do templo. A segunda para o corpo da igreja, cujos ornatos eram no estilo barroco, que dominara no Rio de Janeiro, aparecendo em todos os templos levantados antes da nossa época.
Cinco eram os altares da igreja. O primeiro, à entrada e do lado da Epístola, era o altar de S. Bom Homem. O segundo, do mesmo lado, era o da Senhora das Dores, de especial devoção dos pobres órfãos de S. Joaquim. Do lado do Evangelho, o primeiro altar à entrada era dedicado à Imaculada Conceição de Maria. O segundo a S. José, e no altar-mor adorava-se a S. Joaquim.
O coro era, como ainda hoje se mostra, tão simples como espaçoso.
A terceira porta, que fica à direita, abria para outro corredor (também largo e vasto como o da esquerda), que ia terminar na sacristia, sala de muito suficientes proporções.
Do lado esquerdo, em um pavimento superior, havia uma sala, e além desta, o consistório que por uma porta dava entrada pelo coro.
Como já indiquei, a igreja deixou de ser igreja. É, porém, Deus servido que ainda hoje esteja prestando grande utilidade, porque no corredor da direita e no próprio corpo principal dela se acham estabelecidas as aulas do Liceu de Artes e Ofícios, instituição filantrópica de que o país deve colher muito proveito, e os seus fundadores e professores bem merecida glória, se tiverem constância na sua dedicação e nobre empenho.
Ligado à igreja de S. Joaquim, o edifício do antigo seminário, e hoje do externato, se mostra com dois pavimentos, um térreo e outro superior, abrindo-se neste duas janelas de grades de ferro para a Rua Larga de S. Joaquim, e algumas outras iguais para um pátio murado que oferece uma pequena face para aquela rua e outra muito maior para a Rua da Imperatriz, estendendo ainda o edifício uma terceira face pela Rua da Prainha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.