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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Ao ver aquele que conhecia a mancha que nodoava sua reputação, Otávio corou, involuntariamente, e, apontando para uma cadeira, disse:

— Senta-te.

— Não, Otávio, eu não me sentarei.

— Pois conversaremos de pé; mas nunca me passou pela cabeça que fosses tu quem me escreveu aquele bilhete singular.

— Eu não te escrevi bilhete algum.

— É que a tua visita a estas horas...

— A minha visita a estas horas, Otávio, quer dizer que entre nós tem de decidir-se uma questão bem grave.

— E então...

— Eu venho dizer-te que tive uma hora de loucura, da qual me acho felizmente curado, e que por conseqüência posso desfazer tudo quanto havia feito desarrazoadamente.

— Peço que te expliques... e depressa: vês que eu espero alguém.

— Pensei que me tinhas compreendido, Otávio; porque a minha hora de loucura se passou entre nós dois.

— E portanto...

— E, portanto, eu te declaro que já não me acho disposto a consentir que seja reduzida à miséria uma família inteira, para obrigá-la a sacrificar-te uma bela moça.

— Félix!...

— Passou o tempo, Otávio, em que tua voz me fazia calar, e os teus olhos me obrigavam a abaixar a cabeça; duas paixões nos atiraram para um abismo... estamos hoje na mesma linha. Otávio, vermelho de vergonha e de despeito, olhou para Félix como se não acreditasse que era aquele mesmo homem que lhe estava falando; porém, o guarda-livros, forte e decidido, por sua vez, prosseguiu:

— Eu venho, Otávio, receber as letras falsas que tive a fraqueza de te passar; venho declarar-te que o contrato da infâmia está roto.

— Oh!... isto é admirável!... exclamou Otávio; é admirável, que tu, Félix, levantes a cabeça diante de mim!...

— Sim, eu a abaixei diante de outros, e era preciso que a levantasse diante de alguém; Otávio, eu te estou devendo horas inteiras de vergonha, de miserável submissão, horas de torturas que te venho pagar agora.

— Insensato!...

— Oh!... pois bem. Compreende que diante de mim se apresentou um homem que me disse: miserável! tu roubaste uma cruz de brilhantes... quem te denunciou foi aquele mesmo a quem a confiaste!...

— É falso!...

— Foi Otávio... há alguns meses passados, em momentos de horrível padecer, foi ele quem te denunciou a uma mulher morfética!...

Otávio não teve uma palavra para dizer. Félix prosseguiu:

— Portanto, vês bem, Otávio, que tu faltaste à principal condição de nosso contrato de infâmia; e, neste caso, está nulo: eu quero, pois, as letras que me arrancaste.

— É tarde, Félix.

— Tarde?... tu não podes dizer-me que é tarde. Agora, Otávio, é tempo oportuno sempre para mim; sofri quanto sofrer podia; esgotou-se-me a paciência. Vamos!

— Félix!...

— Otávio, as letras falsas!...

— Miserável!...

É um nome que nos cabe a ambos; enfim, as letras!...

— Oh!... e não te lembras que eu tenho a vingança nas minhas mãos?... que nossas infâmias estão casadas?... que somos solidários na vergonha?...

— Sim; e porque eu já esgotei o meu cálice até às fezes, justo é que esgotes também o teu: as letras!...

— Pois bem: a cruz de brilhantes!...

— Era o teu escudo, não é assim, Otávio?... tu tinhas feito do teu amigo a miserável carta com que jogavas; que importava pouco que fosse perdida ou não, contanto que em resultado a partida do teu jogo de infâmia fosse por ti ganha: não é isto assim?... não é verdade o que eu estou dizendo?... oh! Otávio!... Otávio!... o teu escudo está quebrado!...

Otávio encarava Félix sem compreendê-lo.

— As letras!... as letras!... disse este levantando a voz.

— A cruz de brilhantes!...

— Vai pedi-la à filha do Sr. Hugo de Mendonça.

— Quê!... exclamou Otávio admirado.

— Sim! a minha vergonha está passada: tu me traíste... a morfética revelou por sua vez o que lhe confiaste, e esse homem, que me veio dizer: — roubaste uma cruz de brilhantes! — esse homem arrastou-me pelas ruas, varreu com meu rosto as escadas da casa do Sr. Hugo de Mendonça e me obrigou a ir lá com o meu crime nas mãos, com as lágrimas nos olhos, e com o grito de misericórdia na boca!

— E esse homem?...

— Esse homem é um demônio que nada ignora do que lhe convém saber; esse homem sabe do nosso contrato... não ignora que tu tens as letras falsas... sabe tudo!

— Mentira!...

— Oh!... não! desgraçada ou felizmente verdade!...

— Nós estávamos sós, e fechados no teu quarto...

— E por cima das nossas cabeças, a Providência, que não dorme, nos observava pelos olhos de um menino.

— E então...

— Um dos caixeiros da casa do Sr. Hugo me espreitava... e testemunhou o crime de nós ambos!

— Oh!... gritou Otávio deixando-se cair na cadeira.

Passaram-se alguns momentos em silêncio, durante os quais a cabeça de Otávio se não ergueu dentre as mãos, onde tinha tombado.

Terrível anúncio era esse que ele acabava de ouvir, e seu espírito lutava com a verdade para achar um meio de dizer — é mentira; trabalhava, perdido nesse pélago de vergonha, para deparar com uma tábua de socorro, em que se agarrando dissesse — ainda me não perdi! Enfim, Otávio viu brilhar uma tênue e leve nuvenzinha de esperança. Era o que por então bastava; atirou-se para ela dizendo:

(continua...)

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