Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Não menos são de notar os pescados que se criam nos rios de água doce da Bahia, que os que se criam no mar dela; do que é bem que digamos daqui por diante.E comecemos dos eirós que há nestes rios, que se criam debaixo das pedras, a que os índios chamam mocim, os quais são da feição e sabor das de Portugal.Tareiras são peixes tamanhos como mugens, e maiores; mas são pretos, da cor dos enxarrocos, e têm muitas espinhas, os quais se tomam a linha, nos rios de água doce; têm boas ovas e nenhuma escama; do que há grandes pescarias. Juquiás chamam os índios a outros peixes da feição dos safios da Espanha, mas mais pequenos; os quais se tomam às mãos, entre as pedras; o qual peixe não tem escama, e é mui saboroso.Tamuatás são outros peixes destes rios que se não escamam, por terem a casca mui grossa e dura, e que se lhe tira fora inteira depois de assados ou cozidos, os quais se tomam a linha; e é peixe miúdo, muito gostosos e sadio.Piranha quer dizer "tesoura"; é peixe de rios grandes, e onde o há, é muito; e é da feição dos sargos, e maior, de cor mui prateada; este peixe é muito gordo e gostoso, e torna-se a linha; mas tem tais dentes que corta o anzol cerce; pelo que os índios não se atrevem a meter na água onde há este peixe, porque remete a eles muito e morde-os cruelmente; se lhes alcançam os genitais, levam-lhos cerce, e o mesmo faz à caça que atravessa os rios onde este peixe anda.Querico é outro peixe de água doce da feição das savelhas, e tem as mesmas espinhas e muitas, e é muito estimado e saboroso, o qual peixe se toma â linha.Cria-se nestes rios outro peixe, a que os índios chamam uacari, que são do tamanho e feição das choupas de Portugal, mas têm o rabo agudo, a cabeça metida nos ombros e duas pontas como cornos; e têm a pele grossa, a qual os índios têm por contrapeçonha para mordeduras de cobras e outros bichos, o qual se toma a cana.Tornam-se nestes rios outros peixes, a que os índios chamam piabas, que são pequenos, da feição dos pachões do rio de Lisboa, o qual é peixe saboroso e de poucas espinhas.Também se tomam a cana nestes rios outros peixes a que os índios chamam maturaquê, que são pequenos, largos e muito saborosos.Há outros peixes nos rios, a que os índios chamam gua-rara, que são como ruivacas, e têm a barriga grande, os quais se tomam a cana.Acarás são outros peixes do rio, tamanhos como bezugos, mas têm o focinho mais comprido, que é peixe muito saboroso; o qual se toma a cana.Há outras muitas castas de peixe nos rios de água doce, que para se escrever houvera-se de tomar muito de propósito mui largas informações, mas por ora deve de bastar o que está dito para que possamos dizer de algum marisco que se cria na água doce.
C A P Í T U L O CXLV
Que trata do marisco que se cria na água doce.
Assim como a natureza criou tanta diversidade de mariscos na água salgada, fez o mesmo nos rios e lagoas da água doce, como se verá pelos mexilhões que se criam nas pedras destes rios e no fundo das lagoas, que são da feição e tamanho dos do mar, os quais não são tão gostosos por serem doces.Também se criam nas pedras destes rios caramujos maiores que os do mar e compridos, a que os índios chamam sapicaretá.No fundo das lagoas, nas lamas delas, se criam amêijoas redondas que têm grande miolo, a que os índios chamam como as do mar, as quais são, pelo lugar onde nascem, muito insossas.Mais pelo sertão se criam, nos rios grandes, muitos mexilhões de palmo de comprido e quatro dedos de largo, que são pela banda de dentro da cor e lustro da madrepérola, que servem de colheres aos índios, os quais têm grandes miolos; por serem de água doce não são mui gostosos como os do mar.Também se criam nestes rios muitos e mui diversos camarões, dos quais diremos o que foi possível chegar à nossa notícia; começando primeiro dos mais gerais, que os índios chamam poti, que são muitos, do tamanho dos grandes de Lisboa, mas mais grossos e têm as barbas curtas, os quais se criam entre as pedras das ribeiras e entre raízes das árvores, que vizinham com a água, e em quaisquer ervas que se criam na água; de que os índios se aproveitam tomando-os às mãos; e são muito saborosos.Há outra casta de camarões, a que os índios chamam aratus, que são da mesma maneira dos primeiros, mas mais pretos na cor, e têm a casca mais dura, que se criam e tomam da maneira dos de cima, os quais cozidos são muito bons.Nestas ribeiras se criam outros camarões, a que os índios chamam araturé, que têm pequeno corpo e duas bocas como lacraus e a cabeça de cada um é tamanha como o corpo, os quais se criam pedras no côncavo delas, e da terra das ribeiras, que são muito gostosos e tornam-se às mãos.Potiuaçu são uns camarões que se criam nas cavidades das ribeiras, e têm tamanho corpo como os lagostins, e o pescoço da mesma maneira; têm a casca nédia e as pernas curtas, os quais criam corais em certo tempo, e em outro têm o casco gordo como lagostas, que se também tomam às mãos, e são muito saborosos; e estes e os mais não são nada carregados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.