Por Inglês de Sousa (1891)
Uma galeota de regatão chegara primeiro do que o ubá de João Pimenta ao porto de Tucunduva. O negociante, felizmente, já havia desembarcado e estava na casa de moradia, a discutir com a tia Gertrudes, a velha dona do sítio, e na galeota apenas estavam os dois remeiros, dois tapuios que olhavam com indiferença para os tripulantes e passageiros do ubá, deixando-se ficar na sua apatia de tapuios indolentes, que de nada se admiravam. Padre Antônio saltou logo em terra e tomou o caminho da casa, para explicar ao regatão, quem quer que fosse, a companhia de Clarinha. Felisberto foi também, para o apresentar à tia Gertrudes, muito conhecida de João Pimenta e muito amiga do Felisberto, que a conhecera em Maués, numa esplêndida festa de sairé, onde a velha sobressaíra no canto e no bailado com que adorava a Virgem Mãe e o seu Menino naqueles poéticos versos tupis, compostos pelos senhores padres da Companhia para o serviço do culto dos índios convertidos ao cristianismo.
Quando o missionário e o Felisberto chegaram à humilde habitação da bailarina do sairé, travava-se uma luta renhida entre a velha e o regatão, que lhe queria impingir um pouco de café, algum tabaco e um corte de chita verde, a troco do peixe salgado e do cacau que a tapuia armazenara aquele ano no seu quarto de dormir. A velha, parecendo amestrada por dura experiência, não queria largar mão dos seus gêneros com a facilidade cobiçada pelo mercador ambulante. O regatão fazia grandes gestos de enfado, jurava, ameaçava de se ir embora, e de nunca mais tornar a pôr os pés no porto de Tucunduva; pois que não era nenhum marinheiro desgraçado, capaz de roubar os fregueses, nem precisava de adular a gente de pouco mais ou menos. Prezava-se de negociante sério, de homem respeitável, e sempre respeitado, andava naquela vida porque queria, e se o duvidasse a
Gertrudes, que fosse perguntar a toda a vila de Silves. E nessa torrente de palavras grosseiras, proferidas com grave serenidade e segurança, menoscabava o cacau que aquele ano estava por dez réis de mel coado no Pará e dizia horrores do peixe de que ninguém queria a arroba por meia pataca porque dos lagos chegavam batelões atopetados de pirarucus e tambaquis, de que já se não sabia o que fazer; ao passo que o café, esse fiava mais fino. Em todo o Amazonas já não se bebia senão chá de folhas de café, porque o pouco grão que aparecia no mercado era por um despropósito. O tabaco também rareava, por causa da praga que dera em Santarém e em todo o Tapajós. A chita estava por um preço de hora da morte por causa da guerra dos Estados Unidos, valia quase tanto como a seda. A falar a verdade, terminava em tom decidido, não faço empenho, tia Gertrudes, em lhe receber o cacau e o peixe, é sim ou não, pegar ou largar, porque cacau não me háde faltar por toda esta viagem. E fazendo menção de retirar-se, o regatão voltou-se. Padre Antônio reconheceu admirado o capitão Manuel Mendes da Fonseca, o coletor de Silves, em pessoa.
Uma dupla exclamação de surpresa cruzou os ares:
— Ó senhor capitão Fonseca! — O Reverendíssimo aqui!
Seguiram-se as explicações. O capitão Fonseca, pasmo de o ver ali são e bem disposto (até lhe parecia que engordara nos sertões da Mundurucânia), contou o que se sabia em Silves sobre padre Antônio de Morais. Repetiu por miúdo a narrativa do Macário, o encontro dos mundurucus, a guerra destes com os parintintins, a surpresa, a luta do Macário com os índios, a morte do vigário e a salvação miraculosa do sacristão, que devera a liberdade e a vida à intervenção duma cutia misteriosa. Toda a população de Silves, sem distinção de cor política e de crenças religiosas, ficara profundamente consternada com tão triste acontecimento. O próprio Chico Fidêncio, que outrora não poupava os padres nas palestras à porta do Costa e Silva, chegando mesmo a censurar os modos de S. Rev.ma e a duvidar da sua sinceridade, era agora um dos seus maiores glorificadores, tendo até escrito uma correspondência em que' o comparara a S. Francisco Xavier. O professor Aníbal Americano Selvagem Brasileiro escrevera um hino intitulado - O missionário da Mundurucânia, e uma oração fúnebre para ser publicada no Democrata.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.