Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Havia antes dessa data, espalhadas pela cidade, algumas aulas avulsas de instrução pública secundária, uma de latim, uma de filosofia, e alguma outra ainda, e os meninos pobres que não podiam seguir o curso de estudos do Imperial Colégio de Pedro II achavam ao menos naquelas aulas alguns recursos, embora mesquinhos, para cultivar suas inteligências.
Era um benefício já feito, um benefício antigo, a que as classes pobres tinham adquirido um certo direito.
O regulamento de 24 de outubro de 1857 determinou o seguinte, no seu
“Art. 3º – O externato será estabelecido no edifício em que ora se acha o Colégio de Pedro II.
“Logo que for criado este colégio, ficam cessando as aulas avulsas das cadeiras de instrução pública secundária atualmente existentes no município da corte, na conformidade do Decreto nº 630, de 17 de setembro de 1851. Art. 1º, Disp. 7a.”
Não é preciso dizer que o externato a que se refere este artigo é o do Imperial Colégio de Pedro II.
À primeira vista, parece que a disposição do artigo que copiei não apresenta o menor inconveniente. Porque no externato se encontram todas as aulas que se fizeram cessar e muitas outras ainda, e porque o art. 23 daquele mesmo regulamento declara que os alunos externos gratuitos serão admitidos em número indeterminado. Podendo, por conseqüência, concorrerem todos os meninos pobres ao externato, e matricularem-se nas aulas que quiserem. Pois que também isso ficou permitido pelo supracitado regulamento.
Mas o que aparentemente se mostrou sem desvantagem vai depois de breve reflexão parecer o que realmente é: muito prejudicial aos meninos pobres.
Não se trata daqueles meninos pobres que podiam ou podem seguir o curso de estudos do Imperial Colégio de Pedro II. A esses não contrariou de modo algum a disposição do art. 3º do regulamento de 24 de outubro de 1857.
Aqueles, porém, que não tinham meios nem disposições para pretender o bacharelado em letras achavam nessas aulas avulsas uma consolação e um socorro que hoje não encontram mais, pelo menos nas antigas e favoráveis condições.
Dantes, um jovem desfavorecido da fortuna conseguia estudar, por exemplo, latim e filosofia em três ou quatro anos nas aulas avulsas; e hoje, para obter um resultado igual, precisaria estudar sete anos no Imperial Colégio de Pedro II.
As aulas avulsas não estavam sujeitas ao sistema do ensino simultâneo, e os professores, não sendo obrigados a dar às suas lições as proporções convenientes, para não embaraçar o estudo de muitas outras matérias, como acontece naquele colégio, faziam progredir rapidamente os seus alunos sem transtorno de um sistema de ensino.
No Colégio de Pedro II, porém, o estudo de cada matéria é moroso, porque não pode deixar de sê-lo, seguindo-se o ensino simultâneo de muitas matérias. E o estudante que deseja aplicar-se ao estudo de uma só matéria erra, porque perde tempo, matriculando-se na aula competente do Imperial Colégio de Pedro II.
Assim, pois, é evidente que a reforma proveniente do art. 3º do regulamento de 24 de outubro de 1857 foi desastrosa para os pobres, e satisfez apenas uma idéia mesquinha de falsa economia.
O governo devia reconsiderar este ponto da sua última reforma. Cumpria-lhe fazê-lo, não só para dar aos meninos pobres o que eles já tinham desde longos anos, e de que se viam de súbito privados, como para desmentir aqueles que propalam que se procura muito de propósito dificultar aos pobres a carreira das letras. Cumpria-lhe, e cumpre-lhe fazê-lo enfim, para que nunca se possa julgar e ainda menos dizer que os pobres órfãos e os meninos pobres perderam muito com a fundação de uma das nossas mais belas instituições: o Imperial Colégio de Pedro II.
Reparo agora que este meu passeio correu todo inteiro nos campos imateriais do raciocínio. Desde o começo até à terminação dele não pus uma só vez os pés em terra.
Foi um longo passeio dado sem sair à rua.
Se faltei aos meus compromissos, passeando assim, dou as mãos à palmatória, com a condição de que não seja o governo quem me aplique os bolos, porque o governo seria muito suspeito nos seus juízos sobre este meu passeio.
VI
Nos precedentes passeios contei-vos tão rapidamente quanto me foi possível a história do Imperial Colégio de Pedro II, importantíssima e patriótica instituição que tem as suas primeiras raízes no século passado, descendendo muito legitimamente dos seminários dos pobres órfãos de S. Pedro e de S. Joaquim, de quem não conservou o nome, mas herdou a fortuna.
Entretanto, essa história ficaria incompleta, se eu não vos levasse agora a visitar os edifícios onde se acham estabelecidos o internato e o externato do Imperial Colégio de Pedro II.
Creio que devemos começar pelo externato, que tem por si o direito de antiguidade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.