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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

A solução encontrada e a aproximação da partida haviam recordado hábitos e deveres esquecidos; física e moralmente padre Antônio queria voltar a ser o sacerdote que o João Pimenta e o Felisberto haviam encontrado ajoelhado à beira de um rio sertanejo, o mesmo que partira de Silves, alimentando o grandioso projeto de civilizar os mundurucus. Fora, primeiro que tudo, forçoso recorrer às velhas navalhas do seu colega João da Mata, postas de lado quando, vencido pela paixão sensual que o dominara, perdera os estímulos do brio e se chafurdara na degradação moral que o ia inutilizando para sempre. Padre Antônio sacrificara o espesso bigode negro que a preguiça deixara crescer com força, e quando no pequeno espelho de parede se viu restituído à depilação obrigatória do ofício, pareceu-lhe que de fato tornava a ser o que fora, e que com aquela operação tão simples lhe voltavam as idéias, os sentimentos e os gostos do sacerdócio. Ao vestir a batina, alguma coisa embolorada e velha, aquela mesma que em nova trazia com a apurada elegância que entusiasmara as mulheres de Silves, a transformação se completara, e o padre sob a vestimenta negra e grave, que lhe alteava o corpo, sentira o espírito elevado acima das vulgaridades da sociedade em que se metera, dos gostos que ali o haviam detido. A sua superioridade, desprendendo-se das teias em que a haviam enlaçado os apetites do corpo, se afirmara de novo sobre aqueles tapuios ignorantes que o tinham feito resvalar até o nível da sua simplicidade grosseira, na igualdade dos instintos sórdidos de sertanejos sensuais. Quando pôs na cabeça o chapéu de três bicos, e saiu para o copiar, para tomar o caminho do porto, o Felisberto exprimira por uma risada nervosa e sacudida a funda impressão que lhe causava o aspecto do vigário, e a Clarinha enchera-se de involuntário respeito e de encantadora timidez, diante daquela aparência severa e fria de sacerdote que não lhe recordava o amante apaixonado do cacaual e do campo, mas o hóspede extraordinário e imponente que lhe chegara numa tarde de agosto, como um Anjo do Senhor, suave e triste na sua grandeza sobre-humana.

Entretanto, apesar do hábito sacerdotal, padre Antônio de Morais já não era o mesmo mancebo entusiasta e ardente que o vale do Canumã havia visto batendo-se contra a natureza implacável do Amazonas, e consumindo-se numa luta sempre renovada contra o temperamento de campônio livre e robusto, contra o natural de poldro rebelde que a educação embalde procurara domar. Engordara na vegetação preguiçosa dos três meses passados no sítio; a satisfação dos apetites por longo tempo comprimidos e contrariados, contentando-lhe a carne, dera-lhe a robustez da virilidade perfeita, o desenvolvimento másculo do corpo. A alta estatura, favorecida pela formação do tecido adiposo, dava-lhe uma aparência de autoridade e poder, que confirmavam o semblante arredondado, com os olhos à flor do rosto, os lábios carnudos, a boca grande e franca, a fronte espaçosa e lisa, que ele vira com prazer ao espelho da Clarinha. Os músculos da face, repuxados para baixo, davam-lhe ao rosto uma expressão de serenidade satisfeita e de segurança de ânimo. Não mais os indícios duma paixão agitada por sentimentos contrários se viam na fisionomia simpática e melancólica do padre que freqüentara o cemitério de Silves, comprazendo-se na meditação e no silêncio. Nem tampouco se refletiam naquele rosto os generosos ardores do proselitismo religioso que o arrancara dos labores triviais dum paroquiato aldeão para o atirar a uma empresa arriscada e perigosa. Naquela larga face de homem robusto e são acentuavam-se, pelo contrário, a convicção da própria força, a paz da consciência, firmada após lutas devastadoras, o desprezo dos homens e um contentamento íntimo de quem se sabia superior ao meio em que tinha de viver, e apto para vencer todos os embaraços que se lhe pusessem diante. Não podia ser mais completa a transformação, ele próprio o percebera num derradeiro lampejo de sua consciência moral, nem a revolução profunda que em tão limitado espaço de tempo se operava no seu espírito e no seu coração, gravando-se de modo indelével na sua face respeitável de padre repousado e tranqüilo. Vivera naqueles três meses mais do que em toda a mocidade, e como se o atrito das paixões que lhe haviam escaldado o sangue tivesse raspado o verniz da educação eclesiástica, deixando a nu o esqueleto do matuto criado à lei da natureza, ele se reconhecia agora tal qual era, tal qual podia ser, não conservando da exaltação de sentimentos e de imaginação, que determinaram os passos decisivos de sua vida, senão o ardor latente, sob a severa aparência de padre desiludido, dos gozos sensuais e da ambição de poder e de glória, um misto contraditório de aspirações e de gozos que ele harmonizava perfeitamente na sua filosofia arguciosa e pessoal.

Achava-se bem assim.

(continua...)

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