Por Aluísio Azevedo (1884)
E passaram então a falar de estudos. Amâncio fazia recriminações: “Só encontrara dificuldades”. Disse a sua antipatia pelas ciências práticas; queixou-se de alguns veteranos, que por serem mais antigos na escola, se julgavam com direito de maltratar os outros. “Era estúpido! simplesmente estúpido!”
— Tradições! respondeu o Paiva, com a indiferença de quem não preocupam tais bagatelas. — Isso há de acabar...A natureza não dá saltos!
Amâncio, como qualquer provinciano que ainda não tivesse ocasião de apreciar o Rio de Janeiro, julgava-se tão desiludido a respeito dele, quanto a respeito de estudos.
— Sempre imaginei que fosse outra coisa!...disse. — A tal Rua do Ouvidor, por exemplo!...
Paiva já não o ouvia, era todo atenção para um cartaz de teatro, que um sujeito pregava na parede defronte.
Amâncio prosseguiu, declarando que, até ali, nada encontrara de extraordinário na Corte.
— Com franqueza — antes o Maranhão! Com franqueza que antes! Não achas?...perguntou.
— É! respondeu o outro, distraído.
Mas Amâncio precisava desabafar e não se contentou com aquela resposta. Insistiu na pergunta; chamou a atenção do Paiva, agarrando-se-lhe à gola esgarçada do fraque.
— Não, filho, deixa-te disso, retorquiu o interrogado. — A Corte sempre é Corte!...
— Ora qual!
— É porque ainda não estás acostumado, ainda não conheces o Rio! Hás de ver depois!...
Amâncio duvidava.
— Verás! repetia o Paiva.— Daqui a um ou dois anos é que te quero ouvir.
E passaram de novo a falar de estudos, matrícula e de exames. Paiva bocejou; o outro estava “caceteando’’. Quis safar-se.
— Espera! implorou Amâncio, apoderando-se-lhe de novo da gola do fraque — Espera!
— Onde vais tu?... Conversa mais um pouco! suplicava ele com a voz infeliz de quem pede uma esmola. Não te vás ainda! Que pressa!
Paiva tinha de ir almoçar com um amigo. Estava muito ocupado! “Naquele dia não dispunha de um momento seu ” Depois, depois se encontrariam!
— Não! Vem cá! Espera!
O Paiva levantou as sobrancelhas, impacientando-se.
— Mas, vem cá, dize-me uma coisa: o que é que tanto tens hoje a fazer?...inquiriu o outro.
— Filho, questões de interesse! respondeu aquele, procurando abreviar explicações. Veio-lhe, porém, um ímpeto de raiva e começou a falar alto sobre dinheiro; havia brigado na véspera com o seu correspondente.
— Um burro! exclamava, — um vinagre! Imagina tu que o malvado sabe perfeitamente que não tenho ninguém por mim aqui no Rio, e põe-se com dúvidas para me dar a mesada! ...Como se aquele dinheiro lhe saísse do bolso! Diabo da peste!
— Ele então não te quis dar a mesada?...perguntou Amâncio muito espantado.
— É o costume aqui!retrucou o Paiva desabridamente.— Eles julgam que nos fazem grande obséquio em dar-nos aquilo que nos pertence!
E, olhando para Amâncio com os olhos apertados:
— Mas também, filho, disse-lhe meia dúzia de desaforos, como ele nunca ouviu em sua vida! Cão!
E expôs a descompostura por inteiro, na qual as palavras galego ,ladrão, cachorro entravam repetidas vezes.
— De sorte que, terminou o estudante mais tranqüilo, como se houvesse despejado um peso nas costas, — não tenho lá ido! Questão de capricho, sabes? olha, estou assim!
E bateu nas algibeiras.
— Isso arranja-se...disse Amâncio timidamente, receoso de humilhar o colega. E depois, com um vislumbre: Vamos almoçar a um hotel?!
O Paiva concordou, sacudindo os ombros. E, como Amâncio perguntasse onde deviam ir, começou a citar os melhores hotéis; já sem deixar transparecer o menor indício de pressa.
Fazia-se grande conhecedor da Corte, muito carioca, saboreando muito voluptuosamente o efeito de pasmaceira, que a sua superioridade causava no amigo. Deu-se logo ares de cicerone; mostrou-se habituadíssimo com tudo aquilo que pudesse causar admiração a um provinciano recém-chegado; fingiu desdém por umas tantas coisas, que à primeira vista pareciam boas e falou de outras, menos conhecidas, com entusiasmo, com interesse pessoal e com orgulho.
Amâncio escutava-o em recolhido silêncio, mas, como estivesse a cair de apetite, voltou logo à idéia do almoço: lembrou que poderiam ir ao Coroa de Ouro. Paiva fitou-o espantado, e espocou depois uma risada falsa:
— Aquela era mesma de quem vinha do Norte! Almoçar no Coroa de Ouro Vade retro!
Amâncio não teve ânimo de defender a sua proposta, e seguiu o companheiro que pusera a andar com ímpeto.
Entram na Rua do Carmo, atravessaram a de São José e, ao caírem na da Assembléia, Paiva, que ia a pensar, voltou-se de súbito para Amâncio e perguntoulhe decisivamente:
— Tu queres almoçar bem?!
E feriu a última palavra.
— É! respondeu o outro.
— Pois então vamos ao Hotel dos Príncipes!
E seguiram pela Rua Sete de Setembro até o Rocio.
* * *
Ao penetrarem no largo, uma menina italiana, de alguns dez anos de idade, toda vestida de luto, morena, o ar suplicantemente risonho e cheio de miséria ,abraçou-se às pernas de Amâncio, pedindo-lhe dinheiro — para levar à mãe que estava em casa morrendo de fome.
— Sai! gritou-lhe o Paiva, procurando arredá-la.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.