Por Franklin Távora (1879)
— Sim, senhor; tornou o sujeito.
— Sente-se.
Depois de um minuto e silêncio, Bezerra prosseguiu:
— V.S. terá bem presente tudo o que disse nessa carta?
— Lembra-me por alto o que escrevi.
— Falo-lhe nestes termos porque eu a tenho de cor, o que não deve causar espanto, visto ser ela a minha salvação. Posso assegurar a V.S. que as suas letras me arrancaram das garras da morte.
— Eu tudo ignoro a seu respeito, porque a pessoa a quem pedi informações nenhuma me deu ainda.
— Essa pessoa julgou-se dispensada de o fazer, quando soube que eu vinha a Pernambuco. Procurou-me para me pedir que entregasse a V.S. a presente carta.
Assim falando Bezerra punha nas mãos de Albuquerque a carta a que se referira.
— É uma carta de apresentação.
Albuquerque, depois de lê-la, disse a Bezerra:
— Antes de passarmos adiante, julgo no meu dever declarar-lhe que nenhuma parte teve no passo que dei para obter as informações a seu respeito a Sra. D. Maurícia.
— Minha mulher... disse Bezerra.
— Andei nisso por exclusiva inspiração minha, e até a este momento ela tudo ignora a semelhante respeito.
A estas palavras, Bezerra tornou-se mais pálido do que era.
— Ah! disse. Eu cuidava que tudo se havia feito por indicação dela.
— Não, senhor.
— Sei, prosseguiu Bezerra, que minha mulher não encontrou em V.S. somente um cavalheiro, encontrou também um irmão.
— Não lhe tenho feito senão aquilo a que tem direito, pelas suas qualidades pessoais.
— V.S. diz a verdade nestas últimas palavras, minha mulher é uma adorável criatura; e só a cegueira em que vivi nos primeiros anos depois do meu casamento poderia dar origem a cenas fatais que hoje eu recordo com pejo. Mas, senhor, posso assegurar-lhe que a cegueira está agora de todo extinta; e que, ensinado pela experiência, castigado pela sorte, trago para minha mulher o primeiro dos meus afetos, e para a minha querida Virgínia todos os extremos de que é capaz o mais terno dos pais.
Albuquerque tinha os olhos fixos em Bezerra, que parecia exprimir-se não com os lábios, mas com a alma.
Bezerra não fora destituído de graça nas suas feições, de vivacidade no olhar.
Conhecia-se pelas ruínas ainda notáveis destes dotes que eles tinham sido pingues. O senhor de engenho ouvia-o com toda atenção, e não sem prazer.
Bem depressa, Bezerra conheceu que da parte do seu interlocutor havia toda a benevolência para ele. Considerou, então, ganha a sua causa.
Continuou:
— Apanhei muito na cabeça, senhor, apanhei muito mesmo. Fui negociante, fazendeiro, advogado, jornalista. Tudo o que era meu se foi pela água abaixo; mas o meu primeiro tesouro, a minha única fortuna, que eu julgava para sempre perdido, a Deus aprouve que tivessem em V.S. um defensor, um protetor, um depositário venerável. Obrigado, senhor, brigado. Vendido e revendido eu não poderia pagar-lhe este serviço, esta honra, esta esmola, esta felicidade.
— Sr. Bezerra, atalhou Albuquerque, o senhor está laborando em verdadeira equivocação informando-me do estado da sua vida. Não foi meu intento chamá-lo a Pernambuco para restituir-lhe a família que o senhor deixou sair pela porta afora em pranto e desespero. Não tinha e não tenho autoridade para isso. Informei-me por mera curiosidade. Eu queria saber se a mulher que eu recebera no seio de minha família tinha razão de estar separada do marido, até certo ponto pareceu-me até dever meu ter disso conhecimento para minha direção. Se, pelas minhas informações, eu chegasse a convencer-me de que a Sra. D. Maurícia não era digna de viver à minha sombra, retirar-lhe-ia imediatamente toda a confiança, e sobre as suas costas fecharia para sempre as portas de minha casa. Felizmente, senhor, parece-me que não foi ela quem mais concorreu para a separação que lastimo.
— Toda a responsabilidade deste deplorável acontecimento me pertence. Minha mulher foi mártir das minhas loucuras. Quero pedir-lhe que me perdoe, e que venha d’ora em diante proporcionar-me a felicidade, a que eu não soube dar o devido valor.
— Neste particular, senhor, tudo correrá por sua conta.
— Mas V.S. há de auxiliar-me na extinção do escândalo e da desgraça que há três anos trazem apartados de mim dois entes que hoje constituem a minha única riqueza.
— Tenho os melhores desejos de que cessem este escândalo e desgraça; e prometo-lhe que tudo farei para que o senhor e ela voltem a viver em harmonia, respeitados e estimados dos homens de bem. Antes, porém, de chegarmos a qualquer resultado, exijo do senhor um serviço, a que me considero com direito.
— Tenha V.S. a bondade de declara que serviço é.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.