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#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

Não só ouvíra seu rogo a Virgem Santissima, como a restituíra á vida e ternura do querido de sua alma. Este era o segredo da novena que se tinha feito logo depois do seu restabelecimento. A afflicção de Ayres durante a molestia da menina, os desvelos que mostrava por ella, ajudando Ursula na administração dos remedios e nos incessantes cuidados que exigia a convalescença, mas principalmente, a ingenua expansão d'alma, que em crises como aquella, se desprende das miserias da terra, e paira em uma esphera superior:

tudo isso rompêra o enleio que havia entre os dois corações, e estabelêcera uma doce correspondencia e intimidade entre elles.

N'esse enlevo de querer e ser querida, vivera Maria da Gloria todo o tempo depois da molestia. Qual não foi pois o seu desencanto quando Ayres se partiu sem ao menos dizer-lhe adeus, e quem sabe si para não mais voltar.

Cada dia que volveu foi para ella o supplicio de uma esperança a renascer a cada instante para morrer logo apoz no mais cruel desengano.

Cêrca de um anno era passado, e em S. Sebastião não havia novas da escuna Maria da Gloria.

Para muita gente passava como certa a perda do navio com toda a tripolação; e em casa de Duarte de Moraes já se trazia luto pelo amigo e protector da familia.

Maria da Gloria porém tinha no coração ura presentimento de que Ayres ainda vivia., embora longe d'ella, e tão longe que nunca mais o pudesse ver n'este mundo.

Na crença do povo miudo o navio do corsario andava no oceano encantado por algum genio do mar; mas havia de apparecer quando quebras-, se o encanto: o que tinha de succeder pela intrepidez e arrojo do destemido Lucena.

Essa versão popular ganhou mais força com os contos da maruja de um navio da carreira das Indias, que fazia escala em S. Sebastião, vindo de Gôa.

Referiam os marinheiros que um dia, sol claro, passára perto d'elles um navio apparelhado em escuna, cuja tripolação compunha-se toda de homens vestidos de compridas esclavinas brancas e marcados com uma cruz negra no peito.

Como lhes observassem que talvez seriam penitentes, que iam de passagem, affirmavam seu dito, assegurando que os viram executar a manobra mandada pelo commandante, tambem vestido da mesma maneira.

Accrescentavam os marinheiros que muitos dias depois, em uma noite escura e de calmaria, tinham avistado ao largo o mesmo navio a boiar sem governo; mas todo resplandecente das luminarias dos cirios accesos em capellas, e á volta de uma imagem.

A tripolação, vestida de esclavina, rezava o terço; e as ondas banzeiras gemendo na prôa, acompanhavam o canto religiosio, que se derramava pela immensidade dos mares.

Para o povo, eram estas as provas evidente de estar o nario encantado; e si misturava assim o paganismo com a devoção christã, tinha aprendido este disparate com bom mestre, o grande Gamões.

XIV

A VOLTA

Um anno, de dia a dia, an dou Ayres no mar, Desde que se partira do Rio. de Janeiro não puzera o pé em terra, nem, a avistára sinão o tempo necessario para enviar um, batel em busca das provisões necessarias.

Na tarde da sahida, deixára-se Ayres ficar na pôpa do,navio(até que de todo sumiu-se a costa; e então derrubára a cabeça aos peitos e quedárase até que a lua assomou na horizonte.

Era meia noite.

Ergueu-se e vestindo uma esclavina chamou a maruja, a quem dirigiu estas palavras.

— Amigos, vosso capitão tem de cumprir um voto e fazer uma penitencia. O voto é não tornar a S. Sebastião antes de um anno. A penitencia é passar esse anno todo no mar sem pisar em terra, assim vestido, e em jejum rigoroso, mas combatendo sempre os inimigos da fé. Vós não tendes voto a cumprir nem peccado a remir, sois livres, tomai o batel, recebei o abraço de vosso capitão, e deixai que se cumpra a sua sina.

A maruja abaixou a cabeça e ouviu-se um som rouco; era o pranto a romper dos peitos duros e callosos da gente do mar:

— Não ha de ser assim! clamaram todos. Jurámos acompanhar o nosso capitão na vida e na morte; não o podemos desamparar, nem elle despedir-nos para negar á gente a sua parte nos

trabalhos e perigos. Sua sina é a de todos nós, e a d'este navio onde havemos de acabar, quando o Senhor fôr servido.

Abraçou-os o corsario; e ficou decidido que toda a tripolação acompanharia seu commandante no voto e na penitencia.

No dia seguinte cortaram os marujos o panno de umas velas rotas que tiraram do porão e arranjaram esclavinas para vestirem, fazendo as cruzes com dois pedaços de corda atravessadas.

Ao pôr do sol cantavam o terço ajoelhados á imagem de Nossa Senhora da Gloria, ao qual levantaram um nicho com altar, junto do mastro grande, afim de acudirem mais prontos á manobra do navio.

Ao entrar de cada quarto, tambem rezavam a ladainha, á imitação das horas canonicas dos conventos.

Si porém succedia apparecer alguma vela no horizonte e o vigia da gavea assignalava um pichelingue, de momento despiam as esclavinas, empunhavam as machadinhas, e saltavam á abordagem.

(continua...)

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