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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Que fingido é você, mano! dizia Linda. Quando eu lhe perguntei se vinha passear, respondeu-me “se quiser” e estava morrendo! 

- Com pena de uma certa pessoa, que não fazia senão olhar lá para a figueira.  

- Que história! disse Linda corando. 

- Eu respondi “se quiser” mesmo de propósito; para ver sua tenção. Você não disse ontem que sou eu quem vai todos os dias para aquele lado? 

- E é, sim. 

- Deveras! Sustente outra vez, e verá se não volto. 

- Não, meu maninho do coração, não se zangue. Eu prometi a Berta que hoje havia de ir sem falta. Ela está nos esperando. Vamos; sim? 

- Primeiro há de por as mãos e dizer comigo:

- “Meu Afonsinho...” 

- “Do meu coração...” 

- “Eu lhe peço e rogo... que me leve... onde está...” 

- Onde está Berta! disse rapidamente a menina que ia repetindo a palavra do irmão. 

- “Onde está” insistiu o rapaz uma e duas vezes. 

  Afinal Linda cedeu: 

- Onde está... 

- “Meu benzinho!” concluiu o rapaz. 

  Banhou-se a menina em ondas de púrpura. 

- Ah! Mano! disse Linda com um melodioso queixume. 

- Assim é que se ensina uma sonsinha! replicou o moço a rir. 

- Você me paga! tornou a irmã com um pequeno assomo de revolta. Tenho um certo segredo a para contar a Berta... 

- Segredo de mulher! galhofou o irmão. 

- Vou dizer-lhe que não se importe com gente ingrata; e como só eu é que me lembro dela, não tome o trabalho de vir cá para ver-me, porque eu não tenho mais com quem passear. 

- Você é capaz? 

- Sou. 

- Uma aposta? 

- Não quero; você logra-me sempre. 

- Também tenho uma coisa para dizer. 

- A quem? 

- Não sabe? Faça-se desentendida. A Miguel. 

- O que é? 

- Que uma certa pessoinha, a qual eu não descobrirei... que essa pessoinha me pediu para... para dar um... a ele já se sabe... um... 

- Mano! Não gosto destas graças! 

- Um beliscão, menina! 

- Você ia dizer outra coisa. 

- Ou é você que queria ouvir outra coisa? 

- Está bom; me deixe. 

  Desta vez agastada, Linda afastou-se, voltando as costas ao irmão. 

  Acompanhou-lhe Afonso o movimento com um ar galhofeiro; e aproximando-se devagarinho, nas pontas dos pés, enlaçou de repente em um abraço o corpo gentil da moça. 

- Ai da pombinha! Como está tão jururu! Quem foi que arripiou sua pena, minha rola? Prrru!... Coitadinha! Deixe ver o biquinho! 

  Estas palavras eram o mote das carícias que fazia o Afonso à irmã, alisando-lhe os cabelos castanhos que a brisa espalhara, amaciando-lhe a mimosa cútis da face, e por fim puxando-lhe o botão de rosa dos lábios, que faziam um delicioso biquinho vermelho, apinhados como estavam com o gracioso amuo. 

  Não se podia, com efeito, achar mais justa imagem da formosa menina, do que essa que espontaneamente acudira ao espírito poético do rapaz. Naquele momento com a fronte reclinada, as espáduas ligeiramente curvas, pelo recato, as mão recolhidas ao seio, parecia-se com a juruti quando arrufa a doce e macia penugem. 

  À medida porém que a envolvia a carícia do irmão, ia ela outra vez acetinandose; o talhe delicado esbeltava-se ao natural; as longas pálpebras franjadas erguiam-se desvendando os grandes olhos pardos cheios de uma ternura ebriante; e finalmente o botão de rosa da boca gentil enflorava-se com sorriso encantador, que derramava sobre o formoso semblante da menina uma luz de leite. 

  Só não sabe o que isto é, quem não admirou a espécie de cútis mais delicada, tez suave de bonina bebendo os orvalhos da manhã. 

  Tinha a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era tristeza, pois coavam-se através dos inefáveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, que lhe aveludava a graça e influía-lhe um mavioso enlevo. Irmã das flores que vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha. 

  Não se admira a mulher que a possui, porque não exerce a fascinação esplêndida das formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque ela tem a santidade do amor. 

  Afonso era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos tinham nascido. Mas nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso cordial e folgazão. 

  Era tal a parecença dos dois irmãos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrouse de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã, e tomando uns ares hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume. A moça, cuidando ver a amiga, correu abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, que lhe foram pontualmente retribuídos. 

  Foi depois de ter a seu gosto recebido as carícias da moça, e comido-lhe a beijos o saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando a capelina da irmã, apresentou a sua cabeça de rapaz, desordenada da basta madeixa, que ondulava pelas espáduas de Linda, quando ela a trazia solta no passeio da manhã. 

(continua...)

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