Por José de Alencar (1861)
Sales — Como andam depressa!... Desde Vila Teresa que os sigo sem poder alcançar. Minha Senhora. (Cumprimenta Isabel)
Clarinha — Ora! Por que tomou tanto incômodo!
Sales — Permite que lhe ofereça estas flores?
Clarinha — O meu médico não permite, não, Senhor: fazem-me dor de cabeça!
Sales — À vista disso condeno-as à prisão. (Esconde no peito)
Clarinha — Era melhor que lhes desse a liberdade!
Isabel — O passeio fatigou-me.
Siqueira — Então já viste o lucro que se tira da política?
Isabel — Fala comigo, meu pai?
Siqueira — Não leste o jornal de ontem?
Isabel — Não, já veio?
Siqueira — Estava sobre a mesa. Traz uma correspondência bem forte contra Augusto. Entre outras cousas, diz que ele esbanjou a sua fortuna e de tua filha, e foi obrigado a vender quanto tinha para pagar dívidas de jogo.
Isabel — Mas, é uma calúnia, meu pai.
Siqueira — Quem o sabe melhor do que eu, Bela, que conheço Augusto, como a mim mesmo? É um homem de bem, na extensão da palavra!
Isabel — Como lhe há de ter doído, meu Deus! Ver-se insultado assim, e por quê?
Siqueira — Ele já deve estar habituado! São as flores da carreira política.
Isabel — Não! Só eu sei o que ele terá sofrido.
Siqueira — O melhor é não dar valor a isso! Não vale a pena chorar por tão pouco.
Estou arrependido de ter falado nisso.
Isabel — Por quê? Eu lhe agradeço. Podia não ler o jornal e escapar-me.
Siqueira — Não perdias nada.
Isabel — É justo que tenha a minha parte nesse desgosto. Não sou eu a causa dele?
Siqueira — A causa?... E de que modo?...
Isabel — Foi para satisfazer um desejo meu; talvez um capricho, que meu marido vendeu os nossos bens. Se não me fizesse a vontade não o caluniariam agora.
Siqueira — Achariam outro pretexto. Não faltam!
Clarinha — Meu tio!... O Senhor nunca teve ciúmes de sua mulher?
Siqueira — Como, Clarinha? Não ouvi.
Clarinha — Pergunto se o Senhor nunca teve ciúmes de sua mulher.
Siqueira — Ah! Estou viúvo há tanto tempo!... A falar verdade, não me lembro.
Clarinha — Ora! não quer responder.
Sales — O Sr. Siqueira já não entende desta matéria.
Siqueira — Confesso que nunca fiz profissão dela.
Clarinha — Pois querendo, pode tomar lições com o Senhor Sales.
Sales — Comigo! Ainda estou solteiro!
Clarinha — Felizmente para sua futura mulher.
Sales — Explique-me a razão, D. Clarinha.
Clarinha — Não quero ofender a sua modéstia. (A Siqueira) Decididamente não responde?... Meu tio tem na consciência algum pecado...
Siqueira — O de ter querido bem a minha mulher.
Clarinha — Não se pode querer bem, sem ter ciúmes.
Siqueira — Conforme! Quando se está a merecer, é natural; mas depois que se tem a certeza de uma estima recíproca, me parece até uma ofensa.
Sales — Não concordo!.
Clarinha — Nós já sabíamos a sua opinião, Senhor Sales, antes do Senhor dizê-la.
E tu; Isabel, pensas como meu tio?
Isabel — Perdoa, Clarinha! Estou tão aflita agora.
Clarinha — Que foi! O que sucedeu? (Correndo a ela)
Isabel — Recebi uma notícia bem desagradável.
Clarinha — De quem? De Augusto? E não me dizias! (Sales aproveita o momento
em que Clarinha se afasta para deitar no chapéu dela o ramo de flores)
Siqueira — Não é nada! Uma calúnia anônima contra Augusto.
Clarinha — Não dês importância a isto! É tudo inveja!...
Sales — Em minha opinião o código só devia admitir o anônimo nas correspondências amorosas...
Siqueira — Essas estão fora da lei. (A Isabel). Augusto virá hoje?
Isabel — Estou esperando por ele.
Siqueira — Então não pode tardar.
CENA II
Isabel, Clarinha e Sales
Clarinha — Está bom! Não quero que meu tio te ache triste!
Isabel — Augusto!... E este homem aqui!
Clarinha — Não te importes com ele.
Isabel — Tu sabes que eu não posso suportá-lo.
Clarinha — Mas, que te fez ele, que não tens querido dizer-me!
Isabel — Nada... uma repugnância invencível... Uma dessas antipatias que não se explicam... Não posso vê-lo.
Clarinha — Espera. (Alto). Senhor Sales!
Sales — Estava admirando esta cabana! É muito poética!
Clarinha — Pois deixe a cabana tranqüila, e faça-me o favor de ir até a Rua do Imperador.
Sales — Com muito gosto. Fazer o quê?
Clarinha — Fazer-me a vontade.
Sales — A Senhora está gracejando.
Clarinha — Ora! Por gracejo, não o obrigava a ir tão longe. É muito sério.
Sales — Então não percebo.
Clarinha — Porque não lhe faz conta. Tenha a bondade de ir até lá e contar quantas janelas tem o Hotel de Bragança. Foi uma aposta que fiz com Henrique e quero ganhar.
Sales — O seu desejo é ordem para mim.
Clarinha — Por saber disto é que tomei a liberdade.
Sales Quantas janelas a Senhora disse que tinha?
Clarinha — Não me lembro.
Sales — Então é inútil!
Clarinha — Não há meio de lhe fazer compreender as cousas. Henrique é teimoso, Sr. Sales, mas acredita no que lhe digo.
Sales — Perdão! Vou imediatamente: hoje mesmo venho lhe trazer a resposta!
Clarinha — Enfim... O Senhor é muito amável... Mas é escusado vir hoje... Vamos sair.
Sales — Então... será amanhã. (Com intenção) Uma e outra cousa.
CENA III
Isabel e Clarinha
Clarinha — Estás sossegada?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.