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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

EDUARDO - Ainda bem! Eu sabia que nos havíamos de entender; posso ser franco. Um homem que ama realmente uma moça, Sr. Alfredo, não deve expô-la ao ridículo e aos motejos dos indiferentes; não deve deixar que a sua afeição seja um tema para a malignidade dos vizinhos e dos curiosos.

ALFREDO - uma acusação imerecida. Não dei ainda motivos...

EDUARDO - Estou convencido disso, e é justamente para que não os dê e não siga o exemplo de tantos outros, que tomei a liberdade de escrever-lhe convidando-o a vir aqui esta noite. Quero apresentá-lo à minha família.

ALFREDO - Como? Apesar do que sabe? E do que se passou? 

EDUARDO - Mesmo pelo que sei e pelo que se passou. Tenho a este respeito certas idéias, não sou desses homens que entendem que a reputação de uma mulher deve ir até o ponto de não ser amada. Mas é no seio de sua família, ao lado de seu irmão, sob o olhar protetor de sua mãe, que uma moça deve receber o amor puro e casto daquele que ela tiver escolhido.

ALFREDO - Assim, me permite...

EDUARDO - Não permito aquilo que é um direito de todos. Somente lhe lembrarei uma coisa, e para isso não e necessário invocar a amizade. Qualquer alma, ainda a mais indiferente, compreenderá o alcance do que vou dizer.

ALFREDO - Não sei o que quer lembrar-me, doutor; se é, porém, o respeito que me deve merecer sua irmã, é escusado.

EDUARDO - Não; não é isso, nesse ponto confio no seu caráter, e confio sobretudo em minha irmã. O que lhe peço é que, antes de aceitar o oferecimento que lhe fiz, reflita. Se a sua afeição é um capricho passageiro, não há necessidade de vir buscar, no seio da família, a flor modesta que se oculta na sombra e que perfuma com a sua pureza a velhice de uma mãe, e os íntimos gozos da vida doméstica. O senhor é um moço distinto; pode ser recebido em todos os salões. Aí achará os protestos de um amor rapidamente esquecido; aí no delírio da valsa, e no abandono do baile, pode embriagar-se de prazer. E quando um dia sentir-se saciado, suas palavras não terão deixado num coração virgem o germe de uma paixão, que aumentará com o desprezo e o indiferentismo.

ALFREDO - A minha afeição, Dr. Eduardo, é seria e não se parece com esses amores de um dia!

EDUARDO - Bem; é o que desejava ouvir-lhe. (Vai à porta da sala, e faz um aceno.)

 

CENA VI

Os mesmos, CARLOTINHA

EDUARDO - Vem, mana; quero apresentar-te um dos meus amigos.

ALFREDO - Agradeço!... (a EDUARDO, e a meia voz.)

CARLOTINHA - Mano!... Que quer dizer isto?

EDUARDO - Uma coisa muito simples! Desejo que veJas de perto o homem que te interessa; conhecerás se ele é digno de ti.

CARLOTINHA (com arrufo) - Não quero!... Não gosto dele! 

EDUARDO - Dir-lhe-ás isto mesmo. Em todo o caso é um amigo de teu irmão! (a ALFREDO) Previno-lhe, Sr. Alfredo, que não usamos cerimônias!

ALFREDO Obrigado; quando se está entre amigos a intimidade é a mais respeitosa e a mais bela das etiquetas.

EDUARDO - Muito bem dito! (PEDRO atravessa a cena, entra na sala com a caixa de rapé, volta, e vem aparecer na porta do lado oposto.) D. MARIA - Henriqueta te chama, Carlotinha!

CARLOTINHA - Sim, mamãe! (Sai.)

EDUARDO (a ALFREDO) -~ É minha mãe! (A D. MARIA) Um dos meus amigos, o Sr. Alfredo, que vem pela primeira vez a nossa casa e que, espero, continuará a freqüentá-la.

ALFREDO - Terei nisto o maior prazer. Eu estimava já, sem conhecê-la, a sua família.

D. MARIA - Pois venha sempre que queira. Os amigos de Eduardo são aqui recebidos como filhos da casa!

ALFREDO - Não mereço tanto, e a sua bondade, minha senhora, honra-me em extremo.

EDUARDO - Vamos, estão aqui na sala algumas pessoas de nossa amizade, a quem desejo apresentá-lo.

ALFREDO - Com muito gosto.

D. MARIA - Eu já volto!

CENA VII

PEDRO, CARLOTINHA

CARLOTINHA - Pedro, traz copos d'água na sala.

PEDRO - Ho! Nhanhã!... Rato está dentro do queijo!

CARLOTINHA - Não te entendo!

PEDRO - Sr. Alfredo já sentado junto do piano, só alisando o bigodinho!

CARLOTINHA - Que tem isso?

PEDRO - Eh!... Casamento está fervendo! Pedro vai mandar lavar camisa de prega para o dia do banquete.

CARLOTINHA - Não andes dizendo estas coisas!

PEDRÔ - Ora não faz mal! E Sr. Azevedo? Nhanhã viu! Está caído também, só arrastando a asa!

CARLOTINHA - Pedro!

CENA VIII

D. MARIA, EDUARDO

D. MARIA - Onde vais?

EDUARDO - Vinha mesmo em sua procura, minha mãe.

D MARIA - Precisas falar-me?

EDUARDO - Quero dizer-lhe uma coisa que lhe interessa. Este moço, Alfredo...

D. MARIA - O teu amigo... que me apresentaste?

EDUARDO - Ama Carlotinha!

D. MARIA - Ah! E ela sabe?

EDUARDO - Sabe e talvez já o ame!

D. MARIA - Não é possível! Tua irmã!...

EDUARDO - Sim, minha mãe; ela o ama, sem compreender ainda o sentimento que começa a revelar-se.

D. MARIA - E esse moço abriu-se contigo e pediu-te a mão de tua irmã?

EDUARDO - Não, minha mãe; eu disse-lhe que sabia a afeição que tinha a Carlotinha, e por isso queria apresentá-lo à minha família.

D. MARIA - E exigiste dele a promessa de casar-se com ela? 

EDUARDO - Não; não exigi promessa alguma.

D. MARIA - Foi ele então que a fez espontaneamente?

(continua...)

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