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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Meneses – Deixou-a; está apaixonado pela Carolina; e a Helena, segundo me disseram, o protege.

Araújo – Ah! De amante passou a confidente?

Meneses – É verdade. Tu ficas?

Araújo – Espero por Luís.

Meneses – Então, adeus.

Araújo – Por que não te demoras? Sairemos juntos.

Meneses – Não posso; tenho que fazer. Vou almoçar e depois escrever um artigo. Até a noite.

Araújo – Aonde?

Meneses – No Teatro Lírico. Não vais?

Araújo – É natural.

Meneses – Sr. Viana! Helena...

Luís – Já vai? Nós o acompanhamos.

Meneses – Depressa terminou a sua conversa!

Luís – É verdade; a senhora foi tão simples!

Meneses – Fico bastante satisfeito; é sinal de que a minha apresentação valeu um pouco.

Helena – O senhor sabe que ela vale sempre muito.

Araújo (a Luís) – Conseguiste?

Luís – Consegui tudo. O Meneses tem razão: o dinheiro venceu todas as dificuldades. Ao meio-dia, Carolina está aqui.

Araújo – Ao meio-dia?... São mais de onze...

Luís – Toma o carro. Ela está doente, mas a esperança de ver sua filha...

Araújo – E tu onde me esperas?

Luís – Eu vou dar uma volta, e dentro de meia hora voltarei.

Araújo – Até já, Meneses! (à Helena) Viva!

Luís – Vamos, Sr. Meneses.

Helena – Então ao meio-dia?

Luís – Aqui estarei.

CENA IV (Helena e Vieirinha)

Vieirinha – Almocei bem! O Meneses já foi?

Helena – Saiu agora mesmo.

Vieirinha – E os outros?

Helena – Também.

Vieirinha – Que fazer tu hoje?

Helena – Nada.

Vieirinha – Então não precisas de mim?

Helena – Que pergunta!

Vieirinha – Dá-me um charuto.

Helena – Não tenho.

Vieirinha – Estás hoje muito aborrecida.

Helena – E tu muito maçante.

Vieirinha – Não duvido; passei mal a noite. (Estende-se no sofá) Se quiseres conversar, acorda-me.

Helena – Não se deite, não senhor.

Vieirinha – Por quê?

Helena – Não são horas de dormir.

Vieirinha – Ora, quando se tem sono...

Helena – Espero Carolina. Preciso estar só com ela.

Vieirinha – Está feito. vou trocar as pernas por aí.

Helena – Não voltas?

Vieirinha – É boa! Deitas-me pela porta fora e achas que devo voltar?

Helena – Estás zangado?... Deixa-te disso. Volta às quatro horas.

Vieirinha – Para fazer o quê?

Helena – Iremos jantar ao Hotel de Botafogo.

Vieirinha – É muito longe.

Helena – Não faltes.

Vieirinha – Se puder.

Helena – Conto contigo.

Vieirinha – Vai só.

Helena – Não tem graça!

Vieirinha – Pois eu não posso ir.

Helena – Por que razão?

Vieirinha – Por quê...

Helena – Estás inventando a mentira?

Vieirinha – Tenho acanhamento em confessar-te.

Helena – Começas tarde com os teus acanhamentos!

Vieirinha (rindo) – Deveras!... Pois não vou ao Hotel de Botafogo porque não quero encontrar-me com certo sujeito.

Helena – Ou sujeita?...

Vieirinha – Já está com ciúmes! É um rapaz que me ganhou outro dia cinqüenta milréis no jogo, e a quem ainda não paguei.

Helena – Não será o primeiro.

Vieirinha – Nem o último. Mas esse tem uma irmã feia e rica que pode ser um excelente casamento. Se não lhe pago, fico desacreditado na família.

Helena – Bem feito! Só assim deixarás o maldito vício do jogo.

Vieirinha – Ah! Deu-te para aí! Queres pregar-me um sermão? Basta os que ouço do velho! (Vai sair)

Helena – Então, até quatro horas?

Vieirinha – Não, decididamente não vou; já te disse o motivo.

Helena – Olha! Se tu me prometesses...

Vieirinha – O quê?

Helena – Não jogar mais.

Vieirinha – Que farias?

Helena – Faria um sacrifício...

Vieirinha – Sacrifício... (faz o gesto vulgar com que se exprime dinheiro)

Helena – Sim!

Vieirinha – Prometo o que tu quiseres! Juro!

Helena (dando-lhe uma nota) – Pois toma; vai pagar a tua dívida e volta.

Vieirinha – Está dito!... Tu és uma flor, Helena.

Helena – Sim! Vêm a tempo os teus cumprimentos; nem fazes caso de mim.

Vieirinha – Não digas isto. Os únicos momentos de felicidade que tenho são os que passo junto de ti. Até a tarde!

CENA V (Helena e Carolina)

Carolina – Cheguei muito cedo!

Helena – Não faz mal.

Sentia uma impaciência!... Apenas Ribeiro saiu, meti-me num carro...Antes que me arrependesse!

Helena – Assim estás resolvida?

Carolina – Inteiramente.

Helena – Já duas vezes disseste o mesmo, e quando chegou o momento...

Carolina – Hesitei antes de dar este passo; não sei que pressentimento me apertava o coração, e me dizia que eu procedia mal. Foi o primeiro homem a quem amei neste mundo; é o pai de minha filhinha. Parecia-me que devia acompanhá-lo sempre!

Helena – Se ele não te abandonasse mais dia, menos dia.

Carolina – Não há de ter este trabalho; hoje resolvi-me; esta existência pesa-me. A que horas vem o Pinheiro?

Helena – Não pode tardar.

Carolina – É muito longe daqui a Laranjeiras?

Helena – Não; é um instante! Em cinco minutos podes lá estar.

Carolina – Já viste a casa?

Helena – Ainda ontem. Está arranjada com um luxo!... O Pinheiro vai te tratar como uma princesa.

Carolina – Contanto que me deixe livre.

Helena – Ele te adora; há de fazer todas as tuas vontades. Queres ver que lindo presente te mandou?

Carolina – Por ti?

Helena – Sim; está aqui. (Tira do bolso caixas de jóias)

(continua...)

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