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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Oh! minha tia, é cruel; mas, enfim, os anjos devem passar assim, rápidos e brilhantes como o relâmpago!...

— Portanto, não sabes se é bonita ou feia?...

— Sei, sei muito bem; nesse curto instante nós admiramos, desprendendo um leve chicotinho, uma pequena mão de querubim.

— Mas o rosto?... o rosto?...

— O rosto talvez seja pálido; mas a agitação lhe acendia o rubor nas faces... meigo sorriso estava deslizado em belos lábios cor de nácar... os seus olhos grandes... negros... ardentes... brilhavam como o sol no mais claro dia. Oh!... palavra de honra, minha tia, é o rosto mais bonito que tenho visto!

Rosa soltou uma gargalhada, e disse:

— Continue a sua história, meu primo, na verdade está muito bonita.

— Essa moça causou-nos, como era de esperar, a mais viva impressão, e um jovem poeta que ia conosco, exclamou: eis o tipo romântico! e em toda a viagem não falamos senão na moça romântica.

— E depois?...

— Voltando de S. Cristovão para a cidade, achei a notícia de que meu amo, o Sr. Hugo de Mendonça, havia chegado e partido logo para Niterói, onde tinha mandado alugar uma quinta. Fui imediatamente vê-lo, e quem o diria?... o homem que seguia a jovem cavaleira e de quem desviei os olhos, para só empregá-los nela, era meu amo!

— E a jovem cavaleira?...

— A jovem cavaleira é a filha dele, a quem não conheci, sem dúvida, pela grande rapidez com que passou junto do ônibus.

— Pois bem, e como a achou?...

— Desgraçadamente não a pude ver; estava descansando.

— Foi na verdade uma desgraça enorme!... disse Rosa.

— Certamente, acudiu Félix; mas foi uma desgraça da qual eu espero que minha tia tome o cuidado de vingar-me.

— Como?...

— Já que minha tia não se poupa a oferecer convites para o seu sarau a pessoas a quem não conhece, eu lhe rogo que me encarregue de levar uma carta ao Sr. Hugo de Mendonça, meu amo.

— Eu sei... mas...

— Não o deve fazer, minha mãe, disse Rosa.

— Oh, minha prima! não se perde assim uma moça bonita, quando se trata de um sarau.

— Temos muitas, e muitas bonitas!

— Sim, minha mãe!... há de convidar a moça romântica, quero dançar com ela.

— Eu entendo que deve produzir efeito, disse Brás-mimoso; sempre é uma novidade...

— Não ceda, minha mãe!...

— Ora... dir-se-ia que minha prima tem medo da concorrência.

— Com efeito!... meu primo está hoje insuportável...

— Por que, minha bela prima?... por falar na concorrência?... não, eu tenho a certeza de que minha prima não tem medo.

— Eu vou mostrar-lhe que não tenho medo!... minha mãe, mande convidar essa gente que veio do campo!

— Pois sim, convidar-se-á.

— Bravo, minha mãe!... gritou Manduca.

— Estou louco pelo sarau, disse Brás-mimoso.

Os dois primos estavam exasperados um contra o outro; Tomásia quis vê-los fazer as pazes.

— Vamos, meninos, parecem crianças! andem, preparem-se para dançar a primeira contradança.

— Não posso, minha mãe, disse Rosa.

— É impossível, minha tia, acudiu Félix.

— Oh! e por quê?...

— Porque quero dançar a primeira contradança com o Sr. Otávio.

— E eu fiz votos de dançar a primeira contradança com a moça romântica. — Que loucuras!... exclamou Tomásia.

IV

Honorina e Raquel

A pouca distância desse mar sereno e amoroso, que lambe as brancas orlas da voluptuosa Niterói, se levanta uma graciosa casa cercada de lindos jardins e meio escondida por trás de sibilantes casuarinas e frondosas mangueiras e, olhando como namorada para a cidade do Rio de Janeiro, defronte da qual se terminam seus curtos e floridos domínios por um gradil a cavaleiro do mar, para quem abre passagem engraçado pórtico campestre ladeado de bancos de relva. Alta ia a noite; o silêncio das dez horas derramava não sabemos que feiticeiro encanto sobre essa pequena e ditosa cidade, adormecida ao clarão de cheio luar, por entre seus vales e bosques, pelas encostas dos seus montes, e com uma de suas faces banhadas por mansinhas ondas, e toda ela enfim embalada no seu dormir pelo sussurrar dos zéfiros, que velavam galanteando as flores de seus mil jardins.

Mas, contrastando com esse geral silêncio, como dois belos gênios da noite, duas moças conversavam recostadas a uma janela da casa, que ficou acima nomeada; perto e defronte delas um pé de casuarina se elevava, a lua penetrando por entre seus galhos espargia-se gostosa sobre os semblantes de ambas. Ao clarão do luar pareciam igualmente pálidas, e em descuidadoso alinho, que a hora e solidão desculpava, longas madeixas, negligentemente soltas, caíam como espessa nuvem negra sobre espáduas cor de leite; dir-se-iam duas sombras encantadoras e belas. Depois de separação dilatada, essas duas moças de novo se abraçavam; quem sabe, quem tem sido testemunha do afã com que se dizem mil coisas duas amigas da infância, que há muito tempo se não vêem, compreenderá facilmente o porquê velavam a tais desoras Honorina e Raquel.

(continua...)

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