Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Hortênsia — Ora! O que nós estamos é chegando ao dia do triunfo. O comendador se mostra loucamente apaixonado por Leonina...
Maurício — Mas o infame procedimento que teve ontem...
Hortênsia — Não pensou no que fez e deu-me a satisfação mais completa. Leonina há de tornar-se às boas com ele e eu te asseguro que o comendador nos pedirá nossa filha em casamento no dia dos anos desta.
Maurício — Oh! se isso não fosse uma nova ilusão!
Hortênsia — Não o duvides. O próprio comendador mo deu a entender; o que, portanto, nos cumpre é disfarçar a crise que nos ameaça e salvar as aparências por alguns dias.
Maurício — Entendo; devemos representar o último ato da comédia da impostura.
CENA II
Maurício, Hortênsia e Anastácio, que fica junto à mesa.
Anastácio — Juntinhos a conversar! Os meus dois fidalgos estão de certo desenrolando a sua genealogia: quero apreciá-los de parte. (Vê o livro e abre-o) Oh! o livro de receita e de despesa! Isto é uma obra rara e proibida na casa do desmazelo e da dissipação. (Examina).
Hortênsia — Tratemos da nossa festa: convêm que seja de estrondo, e que se fale durante um mês inteiro do baile de máscaras dado em honra dos anos de Leonina.
Maurício — E se esse casamento não se concluir, onde iremos parar, Hortênsia?...
Anastácio (Batendo com o livro sobre a mesa) — Miserável!...
Hortênsia (Voltando-se) — Meu mano!...
Maurício (Correndo para o livro) — Oh! leu...sabe tudo!...(Pena no livro).
Anastácio (À parte) — Desgraçado!...desgraçado!...(Outro tom e à parte) Mas antes assim, meu Deus; eu temia que ele fosse já um infame, e apenas tem sido um louco; antes assim!
Hortênsia — Que tem, meu mano?...
Maurício — Anastácio, eu compreendo o teu desespero; foi este livro...
Anastácio — E que tenho eu com esse livro?...pela encadernação parece-me obra moderna, e eu só acredito nos autores do século passado.
Maurício (Á parte) — Não leu, ainda bem! (Vai guardar o livro num gabinete e volta logo).
Anastácio (À parte) — Coisa singular!...quer me parecer que este meu irmão ainda tem vergonha!
Hortênsia — Mas por que motivo entrou tão irritado?...
Anastácio — Porque...porque...ah! querem saber por quê?...pois eu lhe conto. Fui visitar uma família de minha íntima amizade, e a quem como a vocês, não via há dezoito anos, e quando esperava encontrar a prosperidade, encontrei somente a desgraça e a miséria.
Hortênsia — Infelizes!...
Anastácio — Infelizes, não; infeliz é o lavrador que trabalha meses inteiros e vê num dia o vento impetuoso ou a enchente assoladora destruir-lhe as plantações; infeliz é o negociante a quem a tempestade roubou a riqueza, fazendo soçobrar seus navios; infeliz é o proprietário a quem o incêndio devorou as casas e a fortuna; mas o perdulário, e o dissipador, vítimas somente do luxo e da vaidade, não têm direito à compaixão dos homens; são entes imorais, que pervertem a sociedade com o seu mau exemplo, e que merecem o castigo da desgraça.
Maurício — Anastácio...levas a austeridade até o excesso...
Anastácio — Não, eu sou apenas justo: escutem; o meu antigo amigo era empregado público, tal e qual como és, Maurício; casara-se com uma senhora que tendo todas as virtudes, tinha também e, infelizmente, o defeito da vaidade e do amor da ostentação...nesse ponto não sei se ele se parece contigo; mas como a ti, Maurício, também sua esposa lhe trouxera em dote uma fortuna modesta; o homem da mediocridade, impelido por sua mulher e por seu próprio gosto, esqueceu a sua esfera, quis ombrear com os grandes, fruir os prazeres, e ostentar o tratamento dos milionários, e nem os cuidados do futuro de uma filha que o céu concedera a esse casal desvairado, puderam arredá-lo do caminho da perdição. Os anos foram correndo nas asas das festas...a fortuna própria foi dissipada...vieram depois as dívidas, e finalmente chegou o dia da ruína e do opróbrio. Que dizem vocês a isto?...
Hortênsia — É um quadro muito comum hoje em dia.
Anastácio — Quando eu ainda há pouco chegava à casa dessa triste família, os credores saíam dela levando os trastes penhorados. Vi soldados à porta, entrei; corri aos meus velhos amigos, oh que destino o seu! O marido ia ser levado para a prisão como estelionatário; a mulher para o hospital, porque havia endoidecido; e a filha...a filha tinha diante de si o desamparo, e perto do desamparo a desonra e a prostituição!...
Maurício — Meu Deus!
Anastácio — Oh castigo do céu! Castigo de Deus!...eram meus amigos; mas foi muito bem merecido!...
Hortênsia — Meu mano , eu o estou desconhecendo!
Anastácio — A razão fala pela minha boca: um empregado público que não é rico, que ganha pouco, e vive no seio da opulência e do fausto, ou rouba ao Estado ou aos particulares; porque ou é malversador, ou contrai dívidas que sabe que não poderá pagar. É verdade ou não, Maurício?...
Maurício — É verdade!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.