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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Mas a visão do mal mostrou-me em seguida a hipocrisia de sua face: a tia Domingas é invejosa e má; detesta as moças porque é velha; maldiz das traições e dos enganos do mundo porque não espera mais ser traída, nem enganada; benze-se, levantando aleives às vizinhas, ou propalando suas fraquezas; faz incríveis economias no governo da casa, esconde dentro do colchão e das almofadas de sua cama o dinheiro que poupa, e no principio de cada mês se lamenta da insuficiência da verba concedida por Américo para n manutenção da família: não dá um vintém de esmola aos pobres; arranca à rudeza e à calunia odienta dos escravos os segredos verdadeiros e falsos da vida intima de seus senhores, e faz das confidencias capítulos de acusação maledicente, acompanhados sempre de um—Deus me perdoe! na terra o acho, na terra o deixo! e pecadora que peca mil vezes por dia, pensa que engana a Deus, rezando, quando não peca.

Tem no mundo um amor, é sua filha; aborrece Américo; mas finge que o estima para ver se consegue casar Anica ou com ele ou em último recurso comigo; aborrece-o porque lhe inveja a riqueza que ele acumula, adorá-lo-ia, se Anica se tornasse senhora de metade da sua fortuna; não me ama, mas tolera-me, sou a seus olhos um genro obrigado na falta de Américo.

Pela força do hábito os lábios da tia Domingas estão em movimento incessante, porque sua boca repete maquinalmente as orações de seu rosário; interrompe, porém, as orações a cada instante no governo da casa para proferir pragas contra os escravos, chamando mil vezes pelo nome do diabo; mas não tem idéia deste pecado; porque reza, como peca, e peca como reza, sem intenção, nem consciência.

A tia Domingas é santa pela cara, e condenada pelo coração.

Retirei a minha luneta, sai da janela, e murmurei tristemente:

—Com que gente eu tenho vivido!... que desilusões, meu Deus! . que desgraça é perder como perdi a confiança nos parentes, e o amor que eu sentia por eles!!!

VII

A visão do mal, o conhecimento das paixões ruins, dos vícios, dos intentos pérfidos ocultos nas dobras negras dos primeiros corações humanos que eu devassara com a minha luneta mágica, dos três corações, em que eu mais confiava, e que mais amava, começavam a produzir no meu espírito os seus naturais efeitos.

Se meu irmão, minha tia e minha prima, os únicos parentes que me restavam no mundo, os dois primeiros que me haviam criado desde bem tenros anos, Anica que fora minha camarada da infância, quase minha irmã, assim tão cruelmente me enganavam, que podia eu esperar dos estranhos e dos indiferentes?...

E o armênio aconselhar-me que me abstivesse da visão do mal! que erro! devo eu preferir viver iludido e vitima cega, estúpida, entregue de corpo e alma àqueles que abusam da minha inocência e simplicidade para sacrificar-me ao seu egoísmo e à sua ambição criminosa ?

—Oh! mil vezes. não! a visão do mal me envenenará talvez a vida; mas há de ser o meu escudo contra os pérfidos, e me acenderá luz para livrar-me dos laços da traição.

Eu sinto já que a minha miopia moral vai se desvanecendo sob o influxo de uma ciência amarga, desconsoladora, triste, comprimente; a ciência do mal; em todo caso porém ciência.

Eu já compreendo e reflito; já sei meditar, e resolver por mim; não sou mais o pupilo perpétuo do mano Américo. A visão do mal emancipou-me.

Dói-me ter perdido a suave, a deleitosa crença da lealdade do amor dos parentes; dói-me, porém acabo de perdê-la.

VII

A miopia moral, a ignorância completa do mal, a inocência conservaram-me até esta manhã franco, simples, sem uma nuvem de suspeita na alma, sem desconfiança dos outros, e com o coração aberto, transparente aos olhos de todos.

O conhecimento do mal vai operando em mim forçosa modificação de idéias e de sentimentos.

Já sei que é preciso fingir: já o sei; porque estou determinado a esconder de Américo, da tia Domingas, de Anica e de todos a principal virtude da minha luneta: direi que por meio dela distingo melhor, mas ainda imperfeitamente os objetos.

Vou portanto dissimular e enganar; primeira lição da ciência do mal que a visão do mal me está dando; primeiro passo no caminho tortuoso da desmoralização; mas inevitável; porque é preciso dissimular e enganar para defender-me de parentes desamorosos e pérfidos e para, cauteloso e seguro, realizar projetos que desde alguns minutos fervem no meu espírito exaltado pelos ressentimentos do coração.

Nas latas do mundo devo bater-me com armas iguais às daqueles que me hostilizam: dissimulação contra dissimulação, engano contra engano.

Em uma hora experimentei três desilusões que me envelheceram trinta anos! os gelos de três desenganos apagaram no meu seio é fogo santo de três afeições profundas, inocentes e puras.

IX

Tenho na mente uma providência que me é necessário tomar em breves dias; tenho no coração um vácuo que ardentemente desejo preencher sem precipitação, mas quanto antes.

(continua...)

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