Por Machado de Assis (1876)
A preta sentou-se com a liberdade de uma pessoa cansada, e velha, e quase mãe daquela filha. Lulu pediu-lhe que dissesse tudo e depressa. Depressa, era exigir muito da pobre Mônica, que além da idade, tinha o sestro de narrar pelo miúdo os incidentes todos de um caso ou de uma aventura, sem excluir as suas próprias reflexões e as circunstâncias mais alheias ao assunto da conversação. Gastou, portanto, a tia Mônica dez compridíssimos minutos em dizer que nada ouvira aos dois rapazes desde que dali saíra; que os acompanhara até ao Largo da Imperatriz e subira com eles até a um terço da ladeira do Livramento, onde morava Alexandre, em cuja casa ambos entraram e se fecharam por dentro. Ali ficou, do lado de fora, cerca de meia hora; mas não os vendo sair, perdeu as esperanças e voltou para a Gamboa.
— Fui e vim com o credo na boca, terminou tia Mônica; e dou graças à Virgem Santíssima por me ver aqui sã e salva.
Pouco sabia a moça; ainda assim aquietou-se-lhe o espírito. Tia Mônica era um tanto curiosa, e em prêmio do seu trabalho achou natural saber a razão daquela excursão noturna.
— Oh! não me pergunte nada, tia Mônica! respondeu Lulu; amanhã lhe direi tudo. — Já sei mais ou menos o que é, disse a preta; negócio de paixãozinha de moça. Não faz mal; eu adivinhei tudo...
— Tudo? perguntou maquinalmente a sobrinha do padre Sá.
— Há muito tempo; continuou tia Mônica; há seis meses.
— Ah!
— Seu primo de vosmecê...
— Oh! cale-se!
— Está bom, não digo mais nada. Só lhe digo que espere em Nossa Senhora, que é boa mãe e há de fazê-la feliz.
— Deus a ouça!
— Agora sua preta velha vai dormir...
— Vá, tia Mônica; Deus lhe pague!
Neste momento, ouviu-se no corredor o ruído de uns passos que se afastavam cautelosamente.
— Que foi? disse Lulu.
— Não sei... Abrenúncio! Ouviu alguma coisa?
A moça foi resolutamente à porta, abriu-a; o corredor estava escuro. Tia Mônica saiu com a vela e não viu nada. Deram-se as boas noites; a moça voltou ao seu leito, onde, sobre a madrugada, conseguiu enfim dormir. Tia Mônica dormiu logo o sono dos anjos, ia eu dizer, e o digo porque ela foi verdadeira angélica naquela aventurosa noite.
X
De quem seriam os passos ouvidos no corredor, senão do padre Sá que percebera movimentos desusados na casa, ouvira a entrada da tia Mônica e quis saber a razão de tal saída a desoras? Alguma coisa soube, quanto bastou para que no dia seguinte acordasse com a resolução feita de concluir dentro de poucas semanas o casamento da sobrinha com o sobrinho.
— Ou se a não ama, que o diga logo de uma vez, pensou o bom padre; é melhor do que fazer padecer a minha pobre Lulu.
Ao mesmo tempo, pensou que não houvera prudência da parte da sobrinha em mandar emissários atrás do primo e fazer intervir criados em coisas de tanta monta. — É preciso repreendê-la, porque não andou em bom caminho, nem a eduquei para leviandades tais.
Isto disse o padre Sá, mas foi só dizer, porque logo que viu a sobrinha e lhe leu no rosto todas as amarguras da noite e os sinais de longa vigília, ficou tomado de comiseração e a severidade cedeu o passo à ternura.
Preferiu repreender a tia Mônica, depois de a interrogar acerca dos sucessos da véspera. A preta negou tudo, e mostrou-se singularmente admirada com a notícia de que ela havia saído de noite; o padre, porém, soube fazê-la confessar tudo, só com lhe mostrar o mal que havia em mentir. Nem por isso ficou sabendo muito; repreendeu a preta, e foi dali escrever uma cartinha ao sobrinho.
A carta foi escrita, mas não foi mandada. Daí a meia hora, anunciava-se nada menos que a rotunda pessoa da senhora D. Emiliana, que veio até à Gamboa arrastando a sua paciência e a idade, com grande espanto do padre Sá que nunca a vira ali; D. Emiliana pediu muitas desculpas ao padre da visita importuna que lhe fazia, pediu notícias da sua obrigação, queixou-se do calor, beijou três ou quatro vezes a face de Lulu, deitando-lhe duas figas para a livrar do quebranto, e só depois destes prólogos expôs o motivo do passo que acabava de dar.
— Não admira, padre-mestre, disse ela, não admira que eu aqui venha, porque enfim... ora, que há de ser? Coisas de rapazes...
— De rapazes?
— De rapazes e moças; ou antes, desta única moça, bonita como ela só!... Que olhos que ela tem! Dá cá outro beijo, feiticeira.
Lulu beijou a boa velha, e ficou ainda mais ansiosa que o tio por ouvir o resto da exposição. O padre fez sinal à sobrinha que se retirasse; não o consentiu D. Emiliana. — Oh! ela pode ficar aqui! Não vou dizer nada que ela não deva ouvir. — O que eu desejava saber antes de tudo, padre-mestre, é se tem feito alguma coisa para que o meu Pedro tome ordens.
— Bom. Tenho, decerto... E que mais ?
— E se é ainda intenção casar este anjinho com o senhor Alexandre... Alexandre, creio que é o nome dele?
— Mas... não sei a que propósito...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.