Por Euclides da Cunha (1909)
Revela-no-los bem um confronto expressivo. Os hidráulicos franceses que averbaram em 1856, como pormenor inverossímil, uma subida de 10,90m, das águas do Garona, originando uma das inundações mais funestas que têm ocorrido na Europa, - certo não compreenderiam a própria existência do vasto território amazônico convizinho ao Purus (que vale cerca de cinqüenta Garonas cheios) se soubessem que ele se alteia 15 metros na foz, onde tem uma milha de largo, e que dali a montante as águas tufam num crescendo espantoso até 23 metros sobre as estiagens, na confluência do Acre.
No entanto estas enchentes são inócuas.
A massa líqüida, inflada logo às primeiras chuvas, sobe, galgando velozmente as barrancas, e em poucos dias vai bater nos esteios dos barracões eretos nos "firmes" mais altos do terreno... e todo este dilúvio em marcha não acachoa, não tumultua, não se arremessa em correntezas vertiginosas, não enleia as embarcações torcendo-as nas espirais vibrantes dos remoinhos e não devasta a terra. Difunde-se; extingue-se silenciosamente; perde-se inofensivo naqueles milhares de válvulas de segurança; e espraiando-se, raso, pelo chão das matas, ou espalmando-se, desafogadamente, em desmarcadas superfícies onde repontam, salteadas, as últimas ramas floridas dos igapós afogados, vai, ao contrário, regenerando aquela mesma terra, e reconstruindo-a porque a torna de ano em ano mais elevada com a colmatagem perfeita de toda a vasa que acarreta.
Assim, em toda aquela planura, o notável afluente amazônico, serpenteando nas inumeráveis sinuosas que lhe tornam as distâncias itinerárias duplas das geográficas, inclui-se entre os mais interessantes "rios trabalhadores", construindo os diques submersíveis que o aliviam nas enchentes — e lhe repontam, intermitentemente às duas bandas, ora próximos, ora afastados, salpintando todas as várzeas ribeirinhas, e avultando maiores e mais numerosos à medida que se desce, e se amortecem os declives, até a larga baixada centralizada em Canutama onde as grandes águas tranqüilas derivam majestosamente, equilibradas, sulcando de meio a meio a vastidão de nível de um mediterrâneo esparso.
Mas esta formação de lagos ou reservatórios naturais, cuja função benéfica vimos de relance, acarreta inconvenientes de tal porte, que tornam, por vezes, em alguns pontos, quase impenetrável uma artéria fluvial que pelos elementos privilegiados de seu perfil concorre com as mais acessíveis à navegação regular.
Realmente nesse afanoso derruir de barrancas, para torcer-se em seus incontáveis meandros, o Purus entope-se com as raízes e troncos das árvores que o marginam.
Às vezes é um lanço unido, de quilômetros, de "barreira", que lhe cai de uma vez e de súbito em cima, atirando-lhe, desarraigada, sobre o leito, uma floresta inteira.
O fato é vulgaríssimo. Conhecem-no todos os que por ali andam. Não raro o viajante, à noite, desperta sacudido por uma vibração de terremoto, e aturde-se apavorado ouvindo logo após o fragor indescritível de miríades de frondes, de troncos, de galhos, entrebatendo-se, rangendo, estalando e caindo todos a um tempo, num baque surdo e prolongado, lembrando o assalto fulminante de um cataclismo e um desabamento da terra.
São, de fato, "as terras caídas", das quais resultam sempre duas sortes de obstáculos: de um lado o inextricável acervo de galhadas e troncos, que se entrecruzam à superfície d’água, ou irrompem em pontas ameaçadoras, do fundo; e de outro as massas argilosas, ou argilo-arenosas que a corrente pouco veloz não dissolve, permitindo-lhes acumularem-se nas minúsculas ilhotas dos "torrões", ou, mais prejudiciais, nos rasos bancos compactos dos "salões", impropriando a passagem aos mais diminutos calados.
Não precisamos insistir neste fato.
A sua gravidade é intuitiva. E considerando-se que ele se reproduz em toda a extensão de 480 quilômetros, que vai da embocadura ao Iaco à do Curiuja, onde se acumulam cada vez mais aqueles entraves, indefinidamente crescentes, chega-se a concluir que o Purus, depois de haver conseguido um dos mais regulares perfis de toda a hidrografia e de aparelhar-se com os melhores elementos predispostos a uma rara fixidez de regime, erigindo-se modelo admirável entre as caudais mais bem talhadas à grande navegação - está, agora, a pouco e pouco perdendo a maior parte dos seus requisitos superiores, com o progredir de um atravancamento em larga escala, que o tornará mais tarde inteiramente impenetrável.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.