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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

O que logo provocou a atenção da jovem esposa de Evaristo foi um grande anel de brilhante que Furtado trazia no dedo - uma pedra enorme, de primeira água, cujas facetas se multiplicavam à vista incisivamente, como um prisma, quando ele erguia a mão morena para cofiar o bigode.

No outro dia, ao almoço, Adelaide estava com um vestido branco de cassa e Furtado achou-a mais comunicativa e mais bela. A toilette de gorgorão dava-lhe uns ares de respeito, que não iam bem com a frescura primaveril do seu rosto; e aquela mudança de vestuário, aquela nonchalance obrigou-o também a mudar o tratamento de "vossa excelência" que tantas vezes repisara na véspera. Evaristo mesmo já lhe havia observado que estavam "em família", que deixasse o "vossa excelência" para pessoas de cerimônias, do contrário não se entendiam, nem podiam estimar-se como bons e velhos amigos.

E entraram todos na mais ampla intimidade, no mais belo convívio doméstico e na mais franca harmonia. — Era pena que o andar superior não estivesse desocupado, oh, era pena! — lamentava o marido de D. Branca. — Uns estrangeiros que ninguém sabia donde tinham vindo!...

Mas, no íntimo, desejava que os estrangeiros não se mudassem nunca; ele assim estava mais perto do seu novo ideal... Em casa ou no Banco, uma só preocupação enchia-lhe o espírito: — Adelaide. Como e por quê? Mistério! E a vida o que é senão um grande e tenebroso mistério?

Luís coçava a cabeça, atordoado, impaciente, fechando os olhos como para ver melhor no fundo da sua alma, e quer os fechasse, quer os abrisse, tinha diante deles a imagem de uma criatura excepcional - anjo e mulher — e essa criatura tinha os olhos de Adelaide, a boca de Adelaide, o sorriso de Adelaide! Como resistir à tentação, ele, que julgava a mulher uma força divina, um poder acima de todos os poderes humanos e acima de todos os preconceitos sociais? .

E nesse filosofar à-toa, nesse monologar do cérebro, perpassava também o riso bom de Evaristo, a alma simples do amigo, cheio de confiança e de um otimismo às vezes ingênuo. Furtado espancava uma imagem para deliciar-se com a outra, com a dos olhos meigos e sorriso angelical...

À noite, fora de horas, acordava, abria os olhos num êxtase sonâmbulo — enquanto a mulher se imobilizava — e punha-se a fazer cálculos, a maquinar planos de general em véspera de batalha. — Como havia de ser isso? Como havia de ser aquilo?...

E, no outro dia, eram os mesmos olhares, as mesmas finezas, que Adelaide já não estranhava, por virem donde vinham. Não padecia dúvida que o Sr. Furtado era um cavalheiro de educação e ela achava muito bonito um homem de educação... Os modos do Sr. Furtado, quem é que os não apreciava?

Ao almoço e ao jantar, longamente discutiam assuntos caseiros e D. Branca via-o quase sempre de bom humor à hora das refeições, dizendo pilhérias, mostrando-se entendido em matéria culinária e em coisas de boudoirs, improvisando anedotas, gracejando, servindo à mulher e ao Evaristo, para poder servir a Adelaide, fito único dos seus olhos e da sua imaginação.

À noite escancaravam-se as janelas da frente e jogava-se à luz do gás amortecido por causa do calor. Nos jogos de parceria, Furtado sentava-se defronte de Adelaide, tocando-se os joelhos, a pontinha dos pés, em torno da pequenina mesa de charão colocada ao centro da sala, e divertiam-se horas e horas, num têteà-tête voluptuoso e calmo, perturbado, às vezes, por uma gargalhada geral que irrompia uníssona das quatro bocas.

Evaristo chamava aquilo, aquelas reuniões familiares "uma pândega", sempre melhor que as da Rua do Ouvidor: mais honesta e menos tumultuosa.

– Inda havemos de fazer um piquenique no Jardim Botânico! - disse uma noite o secretário.

— É verdade, é verdade! — aplaudiu, com entusiasmo, D. Branca.

— Vamos um dia, um domingo, ao Jardim Botânico!

— À Tijuca não seria melhor? — lembrou Evaristo, que ardia por fazer um passeio à "tal Tijuca".

Mas Furtado apontou inconvenientes de ida e volta: — era muito longe a cascatinha, lá onde o diabo perdeu as esporas, enquanto que o Jardim Botânico ficava perto e era mais elegante. Depois, com o tempo, ir-se-ia à Tijuca...

— Em primeiro lugar — concluiu Evaristo — é preciso que esses estrangeiros do segundo andar ponham-se ao fresco, vão para o diabo que os carregue!

E ficou assentado que num belo domingo iriam os dois casais ao Jardim Botânico, em piquenique.

(continua...)

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