Por Adolfo Caminha (1894)
Nada mais restava senão o esqueleto nu do edifício em via de demolição. Todos os objetos tinham sido retirados com assombrosa rapidez.Operários em mangas de camisa martelavam grandes caixões, assobiando monotonamente, enquanto outros carregavam pesados volumes contendo os últimos espécimes da indústria americana.
Voltei imediatamente com um ar compungido de quem acaba de acompanhar um enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando de mim para comigo:
— Ah! americanos duma figa, sois um povo excepcional!
Agora uma pergunta ingênua: Por que é que o Brasil, com os numerosos recursos que tem à mão, timbra em ocupar lugar secundário em quase todas as Exposições a que concorre?
Indiferença, talvez, simples indiferença de nossos governos.
Na célebre Exposição de Filadélfia não sabíamos à última hora como e onde acomodar os produtos deste país, em conseqüência de não ter o governo mandado construir um pavilhão especial.
Contentamo-nos em enviar objetos bastante conhecidos, não fazemos seleção na escolha deles, não nos importa o modo como devam ser acondicionados.
Na Exposição de Viena ainda o Brasil teve de ocupar lugar pouco lisonjeiro, e se alguns de seus produtos principais tiveram a felicidade de ser premiado foi isso devido, não ao governo, mas tão-somente a esforços de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do Pará.
Anuncia-se para o ano vindouro uma Universal Great Exhibition, nos Estados Unidos, cujo sucesso irá rivalizar, talvez, com o da Exposição Universal realizada há meses em Paris e notável pela colossal e tão célebre Torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que a grande nação da América do Sul, o Brasil, não se faça representar com todo o brilho de sua incontestável riqueza.
Agora que somos república, torna-se duplamente preciso que patenteemos ao mundo inteiro a infinita variedade de nossas produções agrícolas, a opulência invejável da flora brasileira e da indústria já bastante adiantada deste belíssimo país, cuja natureza extasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros sábios da Europa.
Se cada Estado souber cumprir seu dever não poupando esforços para esse nobilíssimo fim, certo desta vez não teremos que corar perante as outras nações como nos tempos do anacrônico império do Sr. D. Pedro II.
CAPÍTULO VIII
A Grande Exposição Industrial de Nova Orleans prolongou-se até ao Almirante Barroso. O belo cruzador brasileiro começou desde logo a ser o alvo dos curiosos de todas as nações ali representadas.
Compreende-se o vivo interesse do povo em assuntos desta ordem.
Não havia na cidade quem não soubesse que estava no porto um navio de guerra do Brasil, e este fato por si só era bastante para que toda a gente ardesse em desejo de vê-lo de perto, de o percorrer dum extremo a outro.
— Quantos canhões trazem? perguntava-se. A máquina quantas milhas vence por hora? Quantas rotações por minuto?
E quando afirmávamos que a máquina do Barroso era de ferro Ipanema e d'outros metais brasileiros, que todo o navio, da popa à proa, era construção inteiramente nacional, subia de ponto a surpresa dos nossos vizinhos.
O quê! No Brasil já se constroem navios de guerra? — It is impossible!... E toda a população, tomada de um quase espanto, duvidando, talvez, da nossa habilidade, afluía ao cais.
Todo o cruzador, desde a câmara do comandante até ao alojamento dos marinheiros, desde o tombadilho até ao porão, foi exposto à curiosidade pública.
O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas.
Desde as oito horas da manhã, ao içar-se a bandeira, começavam a atracar lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos.
Grandes lanchas iam e vinham do cais para o cruzador e do cruzador para o cais, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que pagavam 5 cêntimos de ida e volta.Cada uma trazia à proa, em letras esparramadas e vivas, a senha: — Brazilian man~of-war.
À tarde, depois duma faina acabrunhadora de receber famílias e percorrer duas, três e mais vezes o navio, dando explicações, descrevendo aparelhos e maquinismos com uma paciência de pedagogos, íamos a terra, distrair nos cafés, nos teatros, nos bailes, tanto mais quanto multiplicavam-se os convites para todas as diversões públicas e familiares.
As famílias com que íamos entretendo relações de amizade exigiam que fôssemos quotidianamente a suas casas, como se nos sobrasse tempo para isso; e, força é confessar, dispensavam-nos um tratamento quase paternal.
A melhor de todas as recepções que tivemos, não obstante o caráter oficial que a revestia, foi a do Governador da Luísiana, esplêndido baile no Royal Hotel, no dia 8 de abril, ao qual compareceram todas as autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala.
A casaca, o clak, a gravata de seda branca, o vestido decotado até aonde permite a decência, confundiam-se nos salões do hotel ricamente adornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um palácio em festa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.