Por Adolfo Caminha (1895)
Em vez de abrandar, o sueste soprava com mais força, duro e tenaz, ameaçando levar tudo quanto era cabo e pano. A corveta, o “velho esquife”, como a chamavam, ia numa vertigem por aqueles mares, arfando suavemente, oscilando às vezes, quando o vagalhão era maior, com os seus dois faróis de cor — o encarnado a boreste, o verde a bombordo — e a lanterninha do traquete, pálida e microscópica no alto do estai da giba.
Sempre em gáveas e mezena, vento em popa, grande e sombria na noite clara, espectral e silenciosa, ela voava desesperadamente caminho da pátria.
A lua surgindo lenta e lenta, cor de fogo a princípio, depois fria e opalescente, misto de névoa e luz, alma da solidão, melancolizava o largo cenário das ondas, derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do marinheiro, comunicando-lhe a saudade infinita dos que navegam.
E nada de serenar o vento!
Naquele caminhar, cedo se estaria em terra. Cousa talvez de um dia mais...
Enquanto não chegava a hora triste do silêncio oficial, a hora do sono, que se prolongava té o romper d’alvorada, marinheiros divertiam-se à proa, cantando ao som de uma viola chorosa, numa toada sertaneja, rindo, sapateando, a ver quem melhor improvisava modinhas de pé quebrado, “cantigas do mato”... — Não se perdia um luar como aquele! Tinham trabalhado muito: era preciso folgar também. Deitados no convés, de ventre para o ar, outros em sentido contrário, queixos na mão — um sentado pacatamente, aquele outro de pernas cruzadas fumando — todos em plena liberdade, formavam roda em cima do castelo, enquanto era cedo.
O oficial do quarto passeando, passeando, escutava-os enternecido, cheio de contemplação por aquela pobre gente sem lar nem família, que morria cantando, longe de todo carinho, às vezes longe da pátria, onde quer que o destino os conduzisse. Aquelas cantigas assim rudes, assim improvisadas, quase sem metro e sem rima, tinham, contudo, o sabor penetrante dos frutos naturais e o misterioso encanto de confissões ingênuas... Fazia bem ouvi-las, como que o coração dilatavase numa hipertrofia de saudade terna e consoladora.
Deixá-los cantar, os pobres marinheiros, deixá-los esquecer a vida incerta que levam — deixá-los cantar!...
Geme a viola, soluça uma alma em cada bordão; ressoam cantares em desafio no silêncio infinito da noite clara...
O tempo voa, ninguém se apercebe das horas, ninguém se lembra de dormir, de fechar os olhos à paisagem translúcida e fria do luar tropical varrida pelo vento sul. Misterioso instrumento essa viola, que fazia esquecer as agruras da vida, embriagando a alma, tonificando o espírito!
Bom-Crioulo não tomou parte no folguedo. — Estava cansado de ouvir cantigas: fora-se o tempo em que também gostava de fazer seu pé-de-alferes, dançando o baião, fazendo rir a rapaziada.
E quando a sineta de proa badalou nove horas, viram-no passar esgueirandose felinamente, sobraçando a maca. Ia depressa, furtando-se à vista dos outros, mudo, impenetrável, sombrio... Embarafustou pela escotilha, escadas abaixo, e sumiu-se na coberta.
Que iria ele fazer? Algum crime? Alguma traição? — Nada: Bom-Crioulo tratava de se agasalhar como qualquer mortal, o mais comodamente possível. — Lá em cima fazia um arzinho de gelo, caramba! A coberta sempre era um pouco mais quente. O seguro morreu de velho...
Abriu a maca, estendeu-se sobre o convés cautelosamente, com mãos de mulher, examinou o lençol, e, sacando fora a camisa de flanela azul, deitou-se com um largo suspiro de conforto. — Ah! estava como queria. Boa noite!...
Nem uma voz rompia o silêncio regulamentar, senão a do oficial, de hora em hora:
— Barca!
Ventava forte ainda.
O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um acampamento nômade. A marinhagem entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda, espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem o terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era maior o atravancamento. Macas de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre as outras, encardidas como panos de cozinha, oscilavam à luz moribunda e macilenta das lanternas. Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente, contorcendo-se na inconsciência do sono. Viam-se torsos nus abraçando o convés, aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruelmente. De vez em quando uma voz entrava a sonambular cousas ininteligíveis. Houve um marinheiro que se levantou, no meio dos outros, nu em pêlo, os olhos arregalados, medonho, gritando que o queriam matar. No fim de contas o pobre-diabo era vítima de um pesadelo, nada mais. Tudo voltou ao silêncio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.