Por Adolfo Caminha (1893)
—O que é que esperas de teu padrinho, um sujeito estúpido e usurário como um urso? Já não tens pai nem mãe e ele já fala em tirar-te da Escola. É muito homem para botar-te a cozinhar. Não sejas tola!...
Lídia interrompeu-se para cumprimentar um cavaleiro que passava. Era o
Zuza montado num alazão reluzente ao sol, de cauda aparada e arreios de prata. O estudante trajava flanela e meias-botas de polimento, chapéu castor desabado, uma grande rosa branca no peito, luva, rebenque, muito vistoso com seus óculos de ouro e seu bigodinho retorcido para cima.
Fazia o costumado passeio matinal e lembrara-se de passar à porta do amanuense. Cumprimentou rasgadamente a Campelinho. Maria ocultou-se envergonhada atrás do postigo olhando por entre as gretas.
— Adorável! fez Lídia. E tu ainda queres mais, hein, minha tola?
Como sentia não ser ela a querida do Zuza! Ambos com vinte anos de idade, encarando a vida por um mesmo prisma: passeios a cavalo, toaletes de verão e de inverno, como nos figurinos, com chácara no Benfica, um faetonte para virem à cidade, vacas de leite... Um maná!
Tinha “o seu”, o Loureiro, mas o guarda-livros parecia-lhe muito casmurro, muito indiferente a essas coisas de bom gosto, aos requintes da vida aristocrática que ela ambicionava tanto. Queria-o mais por um capricho, porque não encontrava outro homem em melhores condições que desejasse casar com ela. Sabia de sua má fama e agarrava-se ao Loureiro como a uma tábua de salvação. Tudo menos ficar para tia. Verdade, verdade, o Loureiro não era um sujeito ignorante e pobre que lhe fizesse vergonha; mas não tinha certo aprumo, certa elegância no trajar; aferrava-se à calça e ao colete branco, invariavelmente, e ninguém o demovia daquele velho hábito. Entretanto possuía seu cabedal em casas e apólices da dívida pública. Ao passo que o outro, o Zuza, sabia empregar seu dinheiro divertindo-se, trajando bem, passeando como um príncipe. Uma simples questão de temperamento.
— Atira-te, minha tola. Aproveita enquanto o Brás é tesoureiro...
— Que queres tu que eu faça?
— Escreva logo essa carta e faze como eu: marca o dia do casamento. Assim é que se faz. Quem pensa não casa, lá diz o ditado, e é muito certo.
A voz de D. Terezinha chamou a Maria do outro lado da rua. Era hora do almoço. O amanuense estava apressado porque tinha de ir à praia, ao embarque do conselheiro Castro e Silva que seguia para o Rio de Janeiro.
João da Mata almoçou às carreiras, como quem vai tomar o trem, e abalou, enfiando-se no inseparável e já velho chapéu-chile.
Seriam onze horas pouco mais ou menos. Um mormação de fornalha abafava os transeuntes que desciam e subiam a rua de Baixo a pé, esbaforidos.
No porto havia grande lufa-lufa de gente que embarcava e desembarcava simultaneamente, bracejando, falando alto. A maré de enchente, crispada pela ventania de sudoeste, num contínuo vaivém, alagava o areal seco e faiscante. Gente muita ao embarque do conselheiro. Curiosos de todas as classes, trabalhadores aduaneiros de jaqueta azul, guardas de Alfândega e oficiais de descarga com ar autoritário, de fardeta e boné, marinheiros da Capitania, confundiam-se numa promiscuidade interessante. Jangadeiros, arregaçados até aos joelhos, chapéu de palha de carnaúba, mostrando o peito robusto e cabeludo, iam armando a vela às jangadas. A cada fluxo do mar havia gritos e assobios. Um alvoroço! Jangadas iam e vinham em direção do Nacional, que tombava como um ébrio, aproado ao vento. Apenas quatro navios mercantes fundeados e uma canhoneira argentina. Reluzia em caracteres garrafais, pintadinhos de fresco na popa duma barca italiana — “Civita Vecchia”.
O vapor apitou pedindo mala. Era uma maçada ir a bordo com a maré cheia e um vento como aquele. Demais o sol estava de rachar. Um carro parou à porta da Escola de Aprendizes marinheiros: era o conselheiro, metido numa sobrecasaca muito comprida, cheia de atenções. Já o esperavam os amigos receosos de que o vapor não suspendesse sem “o homem”.
A música da Polícia, formada à porta do quartel, gaguejou o Hino Nacional e o conselheiro, cheio de si, cortejando à direita e à esquerda, muito ancho, seguiu a tomar o escaler da Alfândega.
— Pílulas! fez João da Mata limpando a testa. Não vale a pena a gente se sacrificar com um calor deste!
Lá adiante encontrou o Loureiro, que vinha de despachar uma fatura no Trapiche, muito apressado com a sua calça branca lustrosa de gomas sem uma dobra.
— “Por ali?” — “É verdade, tinha ido a negócio.” — Que há de novo? tornou o Loureiro.
— Nada. Vou aqui ao embarque do conselheiro.
— Hás de ganhar muito com isto...
— Que queres, filho? A política, a política...
— Qual política, homem! Com um solão deste não havia quem me fizesse ir a embarque de filho da mãe nenhum.
Uma lufada de poeira redemoinhou a dois passos dos interlocutores derribando bruscamente o chapéu do amanuense, pondo-lhe a calva à mostra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.