Por Domingos Olímpio (1903)
— Com esses remédios sarara a defunta Desidéria – afirmava a feiticeira – que padecia de um puxado com apertos do coração e uma dor que lhe tomava o fôlego, respondia – lá nela – nas cruzes e alastrava pelo braço esquerdo, que às vezes ficava esquecido. Vivera a enferma muito tempo, trabalhando como uma negra, apanhando sol e chuva; e, se não fora um ataque violento que não deu tempo para nada ainda estaria vivendo, com a graça de Deus. Remédio de botica havia levado muita gente desta para melhor vida.
Luzia inquietava-se com a demora de Alexandre, que era pontual à hora do jantar, servido sobre uma tosca mesa improvisada com uma tampa de caixão de pinho, apoiada em quatro forquilhas.
O sol descambava, deixando as cumeadas áridas da serra do Rosário, quando apareceu Teresinha quase a correr e de semblante apavorado.
— Que foi? – perguntou Luzia sobressaltada – Que aconteceu? Que é do Alexandre?...
Teresinha tomou-lhe do braço, levou-a para fora do alpendre e disse-lhe, com voz sacudida de tristeza:
— Uma desgraça! ...
— Brigaram? – inquiriu Luzia ansiosa, encarando no semblante da moça ruiva para lhe aprender a misteriosa notícia.
— Imagina que eu voltava da obra e, quando dei por mim, foi com a gralhada de Romana, aplaudindo com as parceiras. Aquelas não-sei-que-diga riam como doidas varridas. Uma dizia: Foi bem feito! A outra resmungava: Bulir com o de-comer dos pobres!... Que miséria!... Se fosse só feijão – grazinava a deslambida da Romana – meu Deus, perdoai-me... Passou as unhas no dinheiro. Quem havera de dizer – rosnava a Joana Cangati, aquela sirigaita, que tem o bucho caído – que aquele sonso...
— Mas... que aconteceu, mulher de Deus?
— Cheguei-me a elas e soube então... Imagina como fiquei estatelada, e caí das nuvens quando me disseram que Alexandre estava preso...
— Preso!... – exclamou Luzia aterrada – Preso?! ... Preso por quê?...
— Foi o que perguntei. Então a avoada da começou a caçoar: Ora o moço precisava preparar-se para o casório; não teve dúvidas; passou a mão...
— Mas... é mentira!...
— Eu também tenho Alexandre em conta de pessoa incapaz de se sujar com o alheio; mas a verdade é que foi preso e lá está, na casa da Comissão, com o Delegado...
— É impossível, Teresinha. Você não acha que Alexandre é incapaz de tamanha miséria?...
— É o que lhe estou dizendo, minha camarada. Está preso e não tem quem puna por ele: todos o acusam, porque tinha a chave do armazém; apareceu hoje fora de horas...
— Oh! Meu Deus! Era só o que faltava! Juro que é falso! Caia eu morta, se não tenho certeza do que digo.
E, dirigindo-se, firme e resoluta, ao quarto, abrigou-se no amplo lençol branco, dizendo à mãe, surpreendida pelos modos agitados.
— Volto já, mãezinha... É um instantinho ... Teresinha fica ...
Sem atender às observações da velha, passou rápida ao alpendre, e suplicou:
— Você faz companhia àquela pobre... minha amiga. Faça-me esta esmola pelo amor de Deus...
— Que vai fazer?
— Não sei ... Deixe-me ...
Com um movimento violento desvencilhou-se de Teresinha, que tentara detêla, e partiu em desvairada corrida.
CAPÍTULO VII
Além da habitual aglomeração de retirantes na rua do Menino Deus, à porta do armazém da distribuição de, socorros, algo havia de extraordinário, a julgar pelos modos assustadiços, os olhares de maligna curiosidade do mulherio, que se acotovelava aos empuxões para observar o que se passava no interior, onde estavam reunidos os membros da Comissão, o delegado de polícia e o promotor público. Dois soldados, Belota e Cabecinha, guardavam a porta, com ordem de vetar a entrada a quem quer que fosse. Crapiúna girava entre o povilhéu, contendo, com maus modos, os exaltados, que protestavam contra a demora da distribuição das rações, principalmente as mulheres que haviam deixado em casa filhos pequenos, sem um grão de farinha para fazer um mingau.
— Cessa rumor! Cambada – intimava Crapiúna, com a costumeira impostora – Vocês ou ficam quietos e calados ou arribam daqui. Em fariscando comida, ficam logo assanhadas...
E continuava a ronda, sob um chuveiro de imprecações e motejos, que a sua excessiva grosseria provocava.
Os cidadãos incumbidos pelo Governo da penosa tarefa de distribuir socorros, desempenhavam com excepcional e caridosa dedicação, os seus deveres, mantendo o mais escrupuloso zelo e probidade na administração do serviço. Não houvera ainda um caso de muamba, coisa muito vulgar em outros centros de afluência de retirantes, nos quais se explorava escandalosamente a miséria, e se desviavam, para serem vendidos por excessivo preço, os víveres destinados aos infelizes famintos. Era, pois, natural que, ciosos de tão honrosos precedentes, ficassem muito impressionados com o roubo de gêneros e de duzentos mil réis em dinheiro, denunciado, naquela manhã, pelo almoxarife.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.