Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

Este, quanto ao chamado vil metal, não tinha nem pouco, nem muito; era pobre, pobre como o país onde nascera; mas descendia em linha reta de uma família portuguesa muito ilustre pelo sangue, e em cujos primeiros galhos até príncipes se apontavam. Vivia a custa de um cavalo igualmente puro no sangue e na raça, com o qual apostava no Prado. De resto — falava inglês, fumava cigarrilhos de Havana, bebia cerveja como qualquer doutor formado na Alemanha e tinha o distintíssimo talento de encher cinco horas só a tratar de jóquei-clube.

Magdá ficou muito impressionada quando o viu pela primeira vez passar a meio trote na praia de Botafogo fazendo corcovear à rédea tosa um alazão do Moreaux. Achou-o irresistível de botas de verniz, elegantemente enrugadas sobre o tornozelo, calção de flanela branca abotoado na parte exterior da coxa, jaleco de pelúcia cor de pinhão com passamantes e botões de prata, chapéu alto de castor cinzento e luvas de camurça. Por muitos dias conservou no ouvido o eco daquele estalar metódico e compassado, que as patas do animal feriam no calçamento da rua. E, em família, tanto e com tamanha insistência falou do tal conde, que o pai, mau grado as informações contrárias que obtivera a respeito dele, deu providências para o atrair à sua casa.

Foi uma corte sem tréguas a do Valado. Perseguia Magdá por toda a parte; passava-lhe a cavalo pela porta todos os dias; convidava-a para todas as valsas; fazia-lhe declarações de amor em todas as ocasiões.

— Então? perguntou o Conselheiro à filha, depois de lhe comunicar que o conde acabara de pedir a mão dela.

— Não sei, respondeu Magdá. Mais tarde, mais tarde terão a resposta... É bem possível que aceite...

Deram todos como certo o casamento da filha do Conselheiro com o estróina do conde. Fizeram-se comentários, reprovações. Mas, nesta mesma semana, uma noite, estando aquela ao piano e o outro ao seu lado, a virar-lhe as folhas da partitura, ela de repente deixou de tocar, soltou um grito e foi logo acometida por um novo ataque, ainda mais forte que o primeiro.

Havia descoberto, a passear no colarinho do fidalgo, um pequenino inseto da cor do jaquetão com que ele se exibia a cavalo. Acudiram-na de pronto com sais e algodões queimados. Fez-se uma desordem geral na sala; Magdá foi carregada a pulso para o quarto dando de pernas e braços por todo o caminho. E, daí a pouco, levantava-se a reunião e retiravam-se os convidados.

Não pode erguer-se da cama no dia seguinte, nem no outro, nem nos cinco mais próximos. Detinham-na grandes dores de cabeça, amolecimento nas pernas, e uma ligeira impressão dolorosa na espinha dorsal.

— Olhe! disse o Dr. Lobão ao Conselheiro — Isto ainda não é precisamente a tal fome de três dias, mas para isso pouco lhe falta!...

O pai de Magdá resolveu aproveitar a primeira estiada da moléstia para casar a filha com o conde.

— Decerto! decerto! aprovara o médico.

Todavia a caprichosa, ainda de cama, declarou que — definitivamente — mão se casaria com semelhante homem. — Nunca!

— Não! exclamou, com este é tempo perdido! Façam o que quiserem, eu não me caso!

— Mas porque milha filha?...

— Não sei, não quero!

— Ele te deu algum motivo de desgosto?...

— Ora! Já te disse que não quero!

E ninguém, nem ela própria, sabia explicar a razão porque. — Era lá uma cisma.

Quando se levantou estava desfeita; apareceram-lhe náuseas depois da comida e uma tosse seca que a perseguia enquanto estivesse de pé.

Foi então que o Dr. Lobão, enfurecido com a sua doente, porque se recusara a entregar-se ao conde, aconselhou o tal passeio à Europa.

VI

A viagem, como ficou dito, pouco lhe aproveitou ao sistema muscular e agravara-lhe sem dúvida o sistema nervoso. Magdá voltou mais impressionável, mais vibrante, mais elétrica. De novo, verdadeiramente novo, o que se lhe notava era só uma exagerada preocupação religiosa; estava devota como nunca fora, nem mesmo nos seus tempos de pensionista das irmãs de caridade. Mostrava-se muito piedosa, muito humilde e muito submissa aos preceitos da igreja. Falava de Cristo, pondo na voz infinitas doçuras de amor.

É que, enquanto percorrera as grandes capitais do mundo católico, visitando de preferência os lugares sagrados e as ruínas, o seu espírito, como se peregrinasse em busca do ideal fora lentamente se voltando para Deus. Preferira sempre os ermos silenciosos e propícios às longas concentrações místicas. As multidões assustavam-na com a sua grosseira e ruidosa atividade dos grandes centros de indústria e do comércio; o verminar das avenidas e boulevards, as enchentes de teatro, a concorrência dos passeios públicos, a aglomeração das oficinas e dos armazéns de moda, o cheiro do carvão de pedra, o vaivém dos operários, o zunzum dos hotéis; tudo isso lhe fazia mal. Agora, a sua delicadíssima sensibilidade nervosa reclamava o taciturno recolhimento dos claustros; pedia uma vida obscura e contemplativa, toda ocupada com um perenal idílio da alma com a divindade.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1112131415...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →