Por Aluísio Azevedo (1890)
- Fora o Satanás que fizera tudo. O Satanás! - a negra alma vagabunda da perversão e maldade! Fora ele quem, sem mais barregãs nem rameiras para oferecer ao seu régio discípulo de esgrima, quisera dar-lhe até a própria amante. Bem lhe conhecia os planos. Satanás queria dominar inteiramente o príncipe, dominá-lo pela amizade e dominá-lo pelo coração, para ficar o senhor absoluto dessa terra dos Brasis. Conspirava. Conspirava até contra ela - a bela nina formosa!
- É preciso matá-lo! Consiga ao menos que o deportem! Nada vos é impossível, a vós quefizestes deportar o conde d'Arcos.
A Domitila fez-se apreensiva. Ela não gostava do Satanás. E vinham-lhe agora receios de ver a fortuna esboroar-se-lhe no momento mesmo que supunha alcançá-la.
- Em todo caso, disse como que meditando, em todo caso agora não pode ser, porque opríncipe e o Satanás partiram esta madrugada para Santos.
- Caramba! resfolegou d. Bias com a notícia de estar longe o homem de quem tinha medo. Caramba! porque se aqui estivesse, era eu quem o ia matar!
Ela nem sorriu dessa fanfarronada. Mas gritou-lhe imperiosamente:
- Quero essa mulher! Quero a amante de Satanás! Dou-te mil cruzados, se a trouxeres!
E, de pé, ofegante, com um gesto de rainha:
- Vá!
D. Bias saiu.
Caminhou pelas ruas, altivo e malcriado, retinindo a durindana pelas pedras, cofiando o bigode provocadoramente.
Estava longe o Satanás, e ele não tinha medo.
Por isso andou e correu a cidade inteira. Soube logo notícias do drama da rua do Conde. Vieram-lhe calafrios com a noção completa do perigo que correra. Mas dominava-lhe dentro da cabeça a idéia dos mil cruzados que lhe haviam sido prometidos, para o caso de descobrir a amante do escultor-espadachim. E tratou de encontrá-la.
Poucas esperanças tinha a este respeito. Não a conhecia. E as informações dos alguazis amigos, que andavam empenhados em desvendar o mistério da morte de Paulo de Andrade, falavam apenas em suspeitas de que naquela casa residisse uma moça, que devia ter fugido.
Fugido com quem?
Levá-la-ia d. Pedro para algum misterioso antro de amores?
Ou o Satanás tê-la-ia posto a seguro, em algum esconderijo desses que só ele conhecia?
D. Bias estava na incerteza. Não sabia que partido tomar. E pensava até em aproveitar a filha do carpinteiro Custódio, que lhe residia em casa, para fazê-la passar como amante do italiano.
O ponto para ele era receber o dinheiro da Domitila e passar-se imediatamente para qualquer terra longínqua, onde não chegasse o braço vingativo do seu ex-companheiro das bodegas do Mansanares.
Quando seguia, porém, já quase ao anoitecer, pela rua da Vala, chamaram-no de dentro da prisão provisória que ai havia, e onde eram recolhidos os vagabundos notívagos.
Era um alguazil, que ele pusera em meia confidência do negócio, e que lhe mostrou Branca, seminua, com as roupas sangrentas.
A filha de Pallingrini, logo após a brusca partida do pai, precipitara-se sobre o cadáver de Paulo de Andrade. Abraçara-o, beijara-o sofregamente, loucamente, na febre amorosa dessa loucura, que para sempre lhe entenebrecera o cérebro, triturando-lhe o coração.
Depois tivera medo, sentindo rijo e frio, sem aconchegos de abraços e quenturas de beijos, o pálido capitão formoso dos seus amores juvenis.
Teve medo e fugiu.
Perambulou pelas ruas, inconscientemente de si murmurando carícias e meiguices e gritando de repente um grito de horrores.
Prenderam-na.
D. Bias adivinhou-a. Não podia ser outra. Aquele sangue, as palavras incertas que pronunciava, e que podiam todas articular-se ao drama indecifrável da rua do Conde, revelavam-na, garantiam-lhe a autenticidade da descoberta.
E o fidalgo espanhol, aproveitando o alguazil seu amigo, e mais ainda o segredo da noite, que tem sempre um manto escuro para esconder esses mistérios, levou-a para os fundos do convento do Carmo, onde já estavam dadas ordens de recebê-la.
A Domitila nem quis ver a rival que o Satanás lhe pretendia impor. Mas não quis também contar logo o dinheiro que prometera, e ordenou que d. Bias ficasse de guarda a prisioneira.
E a porta pesada de um quarto térreo e sem janelas aferrolhou-se sobre Branca - a pobre criança louca, para quem a sorte se mostrava tão áspera, e que cantava entretanto um alegre bolero espanhol saltitante e amoroso como o pé das sevilhanas.
VIII
O GRITO AURIVERDE
Naquele tempo fazia-se a viagem de Santos a S. Paulo, através do mato virgem. A serra que a Estrada Inglesa hoje corta, e por onde sobem os vagões bufando, só podia ser galgada a cavalo, dificilmente, penosamente. A jornada de d. Pedro fez-se por um dia magnífico. A serra inundada de sol encrespava a sua vegetação prodigiosa, de um lado e de outro do estreito caminho, aberto na mata, por onde os cavalos trotavam enchendo as grotas de ecos prolongados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.