Por Aluísio Azevedo (1895)
O barão. que a certa distância ouvira tudo ao lado do filho, disse a este em voz baixa:
- Pergunta ao teu amigo se ele quer vir conosco passar as férias na fazenda.
Teobaldo, satisfeito com as palavras do pai, foi de carreira ter com o Coruja e voltou logo com uma resposta afirmativa.
- Reverendo, disse então o fidalgo aproximando-se do padre com suma cortesia. Por sua conversação com o Dr. Mosquito fiquei sabendo que o contraria não poder deixar o seu pupilo no colégio; lembrei-me, pois, se não houver nisso algum inconveniente, de levá-lo com o meu filho, a passar as férias na fazenda em que resido.
O diretor deu-se pressa em apresentá-lo um ao outro, desfazendo-se em zumbaias com o barão. E o padre, cuja fisionomia se iluminara à proposta do adulado, respondeu curvando-se:
- Meu Deus! O Sr. barão pode determinar o que bem quiser!... Receio apenas que o meupupilo não saiba talvez corresponder a tamanha gentileza; uma vez, porém, que o generoso coração de V. Exa. sente vontade de praticar esse ato de caridade..
- Não, não é caridade! atalhou Emílio, francamente. Não é por seu pupilo que faço isto, mas só para ser agradável a meu filho... Eles são amigos.
- Se V. Exa. faz gesto nisso.
- Todo o gosto.
- Pois então pequeno está às ordens de V. Exa.
- Bem. Ficamos entendidos. Levo-o comigo e trá-lo-ei com Teobaldo, quando se abrirem de novo as aulas.
O reverendo entendeu a propósito contar ao Sr. barão, pelo miúdo, a história do "pobre órfão"; como ele o recolhera e sustentava, repetindo no fim de cada frase "Que não estava arrependido" e, terminando com a financeira e conhecida máxima: "Quem dá aos pobres, empresta a Deus!..."
VI
- É bem feiozinho, benza-o Deus! o tal teu amigo!... disse o barão ao filho, enquanto André se afastava para ir buscar a sua trouxa.
- Sim, mas um belo rapaz, respondeu Teobaldo. Tem por mim uma cega dedicação.- Embora! É muito antipático! Está sempre a olhar tão desconfiado para a gente!... E parece mudo - só me respondeu com a cabeça e com os ombros às perguntas que lhe fiz.
- É assim com todos.
- Nem sei como vocês se fizeram amigos. Então tu, que, segundo me disse ainda há pouco o Mosquito, não te chegas muito para os teus colegas.
- Só me chego para o Coruja. É o único.
Coitado! O reverendo, ao que parece, não morre de amores por ele; nem à mão de Deus Padre queria carregá-lo para casa.
- Um mau sujeito, o tal reverendo!
- Mas, com certeza não foi por maldade que o recolheu à sua proteção.
- Não sei. Talvez!...
Emílio olhou mais atentamente para o filho e disse sorrindo:
- Tens as vezes coisas que me surpreendem. Com quem aprendeste tu a desconfiar desse modo dos teus semelhantes?
- Contigo. Não me tens dito tantas vezes que gente deve desconfiar de todo o mundo?
- Para não sofrer decepções a cada passo.. exato!
- E que, no caso de erro, é preferível sempre nos enganarmos contra, do que a favor de quem quer que seja!...
- De certo. O homem deve sempre colocar-se superior a tudo e fazer por dominar a todos. O mundo meu filho, compõe-se apenas de duas classes - a dos fortes e a dos fracos; os fortes governam, os outros obedecem. Ama aos teus semelhantes, mas não tanto como a ti mesmo, e entre amar e ser amado, prefere sempre o último; da mesma forma que deves preferir sempre - dar, a pedir, principalmente se o obséquio for de dinheiro.
- Achas mau que eu seja amigo do Coruja?
- Ao contrário, acho excelente. Essa escolha, entre tantos colegas mais bem parecidos, confirma o bom juízo que faço do teu orgulho, e mostra que tens sabido aproveitar-te dos meus conselhos.
- Não compreendo.
- Também ainda é cedo para isso. É preciso dar tempo ao tempo.
O Coruja reapareceu sobraçando a sua pequena mala de couro cru.
- Pronto? perguntou-lhe Teobaldo.
O outro meneou a cabeça, afirmativamente.
- Pois então a caminho! exclamou Emílio, descendo a escada na frente dos rapazes.
Um carro os esperava à porta do colégio; o cocheiro tomou conta das bagagens; Emílio fez subir os dois meninos e sentou-se defronte deles.
André, muito esquerdo com a sua roupinha de sarja, que ia já lhe ficando curta, não olhava de frente para os companheiros e parecia aflito naquela posição; ao passo que Teobaldo, muito filho de seu pai, conversava pelos cotovelos, dizia o que vira, praticara e assistira durante o ano, criticando os colegas, ridicularizando os professores e, ao mesmo tempo, fazendo espirituosos comentários sobre tudo que lhe passava defronte dos olhos pela estrada.
Chegaram à fazenda às oito horas da noite. Vieram recebê-los ao portão a Sra. baronesa e mais a irmã, D. Geminiana, acompanhadas ambas pelo Caetano, que trazia uma lanterna.
Santa lançou-se ao encontro do filho, cobrindo-o de beijos sôfregos e a chorar e a rir ao mesmo tempo, enquanto um escravo, que acudira logo, desembarcava as malas e ajudava o cocheiro a desatrelar os animais.
Teobaldo passou dos braços da mãe para os da tia, que não menos o idolatrava, apesar de ser um tanto resingueira de gênio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.