Por Machado de Assis (1858)
Que o soberbo condor, quando do cimo
Dos Andes rompe o assustado espaço,
E vai surgir além das altas nuvens.
- Voa, e chega aos domínios da Lisonja.
Os flóridos umbrais transpõe de um salto.
Logo em frente lhe surge extensa e bela
Uma alameda de árvores copadas,
Que, para a terra os galhos recurvando,
Com singular donaire e afável gesto
Cortejá-la parecem respeitosas.
Caminha, e fina relva os pés lhe afaga;
Respira, e um doce aroma o peito lhe enche.
A tão brando contacto, a tais delícias,
Ó milagre! um sorriso prazenteiro
Logo vem desbrochar-lhe à flor dos lábios
Que eterna raiva aperta. Segue avante,
A branca e longa escadaria sobe,
A varanda atravessa alcatifada
De brancas flores e cheirosa murta.
Já rendida de gosto, entra na sala,
Dá dous passos, e a recebê-la chegam
Vinte ou trinta Zumbaias, que vergando
Pela cintura o corpo delicado,
Beijar o chão parecem; após delas,
Com dourados turíbulos acesos,
Vêm quatro Rapapés; fechando tudo
Extensa procissão de Cortesias.
XIV
De tais recebimentos namorada,
O primeiro salão transpõe a culpa,
Entra no camarim, forrado todo
De flores, de arabescos, laçarias,
Que enche contínuo, tépido perfume
De seis grandes caçoulas de alabastro.
Entra, e defronte de um pomposo espelho
A Lisonja descobre, que risonha
Mil cumprimentos novos ensaiava
E mil versos rasteiros repetia.
Ao ver a feroz culpa a dona amável
Uma grande mesura em quatro tempos
Graciosa faz, e diz: “A que milagre
Devo eu esta visita? Acaso o orbe,
Que ao peso treme de tuas nobres armas,
Estreito campo é já para teus feitos?
Vens o peito acender da serva tua?
Bem cruel me há de ser esse desastre,
Mas se é teu gosto, sofrerei contente,
A terra beijarei que tu pisares
E acharei na desgraça a glória minha”.
A ardilosa Lisonja assim falando
Toda se curva, e a orla do vestido
Da culpa chega aos lábios; mas a Ira
Prontamente a levanta, e nos seus braços,
Com meneios benévolos, a aperta,
E logo fala: “A tua paz respeito:
Turvar não venho a deliciosa corte
Donde o mundo governas; mas auxílio
Do teu engenho quero”. Aqui lhe conta
A famosa aventura do prelado,
A angústia do ouvidor, e a covardia
Dos ingratos amigos de outro tempo,
E pede que a Lisonja as armas suas
Contra estes empregue. “Que mesquinho
Serviço exiges! (a Lisonja exclama).
Eu podia mandar quatro Zumbaias;
Tanto bastava por vencer o ânimo
Dos rebeldes; mas sendo a vez primeira
Que vens honrar estes quietos paços,
Abater-lhes o colo irei eu mesma
E levá-los de rojo aos pés do Mustre”.
XV
Com diligente mão os filtros busca,
E seguida da hóspede no espaço
Voa ligeira à plaga fluminense.
À casa dos rebeldes se encaminha,
E a todos, um por um, pela alma dentro,
O seu doce veneno lhes entorna.
De baixa adulação logo tomados,
Vestem-se a toda a pressa, e não podendo
Conter o intenso fogo que os devora,
Aos criados de casa e às quitandeiras
Vão fazendo profundas barretadas.
Tanto a Lisonja vã governa os homens!
XVI
Abre a sessão de novo o presidente,
E deste modo fala: “Grave caso
Este é, senhores; mas as vossas luzes
Tudo podem vencer. Em meu conceito
Recusar não podemos o protesto,
E muito embora formidável seja
O prelado, não creio que devamos
Sem amparo deixar as leis do Estado.
Nem poupar desta vez um grande golpe
No atrevido pastor”. Com todo o zelo
Examinado o singular assunto,
O Senado resolve em pouco tempo
Que ao regedor supremo da cidade
Os papéis se remetam com protesto
Do povo, e petição em nome dele
Por que anulada seja sem demora
A excomunhão, e feito este decreto
Voam dali aos paços do Alvarenga.
XVII
O alcaide-mor, que os meios estudava
De praticar no esmorecido povo,
Com a aguda lanceta do Senado,
Uma sangria nova, cortesmente
Os faz sentar e prazenteiro os ouve,
E depois de os ouvir com grande pausa,
A petição da Câmara recebe
Sem muita hesitação; mas porque seja
O caso novo, e caminhar convenha
Sem da igreja ferir os santos foros,
Manda o governador que se convidem
Os diversos teólogos da terra,
O reitor do Colégio, o Dom Abade,
O guardião dos filhos de Francisco,
Frei Basílio, prior dos Carmelitas,
E alguns licenciados de mão cheia,
Que o nó desfaçam deste ponto escuro.
CANTO VII
I
A Preguiça, no entanto, conduzira
Aos macios colchões o grande Almada,
E um sono amigo lhe fechara os olhos,
Enquanto os ilustríssimos amigos
Todos em volta do escrivão Cardoso,
Pela décima vez, na sala próxima,
Da excomunhão a narrativa escutam,
E com ditos de mofa, e com risadas,
A vitória celebram, na esperança
De que o prelado os ouça e lhes aceite
Agradecido esta homenagem nova.
II
Eis que um sonho, agitando as asas brancas
Leve espalha no cérebro do Almada,[19]
Como gotas de chuva rara e fina,
Um só sutil de mágicas patranhas.
Sonha... Em que há de sonhar o grão prelado?
Vê no espaço um ginete alto e possante
À solta galopando, e logo nele,
Elmo de ouro, armadura de aço fino,
A briosa figura de um guerreiro.
Tenta irritado o indômito cavalo
O cavaleiro sacudir na terra,
Mastiga o freio empina-se, escouceia,
Voa de norte a sul, de leste a oeste,
Ora, a pata veloz roça nos mares,
Ora, igual ao tufão, descose as nuvens,
Mas o galhardo cavaleiro as rédeas
Coas fortes mãos encurta, e pouco a pouco
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.