Por Aluísio Azevedo (1884)
— Quero que tenhas de memória um bom repertório de versos, para m'os recitares nas ocasiões de aborrecimento. A prosa todos os dias fatiga muito!
O Borges obedeceu, como de costume, e daí a pouco tempo atroava nas salas a sua voz de baixo profundo, recitando os trechos mais declamatórios de Manha, de Gonzaga.
Um amigo, que ia visitá-lo, não se animou a tocar a campainha, intimidado por aquela gritaria, e desgalgou a escada, benzendo-se. A criada bispou-o e foi logo contar o fato à senhora.
— Pois de hoje em diante quero a porta da rua fechada, enquanto durar a declamação, ordenou Filomena; e, a partir desse momento, fechavam-se sempre ao meio-dia e caíam no recitativo.
Filomena, que tinha muitos versos de memória, lembrou-se de dialogar com o marido as poesias mais próprias para isso. Depois veio-lhe a idéia de recorrer às tragédias de Gonçalves Dias e fazer a coisa mais ao vivo; tomando cada um o traje e o característico que exigia o papel.
— Queres saber de uma coisa?!... disse ela afinal. O verdadeiro é arranjarmos um teatro.
O Borges levou as mãos à cabeça.
— Um teatro! Pois eu tenho de representar?!...
— E que há nisso de extraordinário?... Na Europa o teatro em família é um divertimento da melhor sociedade. Convidam-se algumas pessoas para nos ajudar — o Barradinhas, por exemplo, serve, que tem muito jeito. Vê-se também o Chico Serra, Gonçalves, o Morais, chama-se a viúva Perdigão...
— A viúva Perdigão?!... perguntou o marido, sentindo um arrepio.
— Sim! há de dar uma excelente dama central. E muito desembaraçada e tem graça. Enfim, não faltará quem nos ajude. O teatro pode ser na chácara; estende-se mais aquele pavilhão que lá está e rouba-se um pouco do jardim para a platéia.
O Borges ainda tentou algumas objeções; mas no dia seguinte vieram os trabalhadores, e as obras principiaram.
CAPÍTULO IV
VEREMOS QUEM VENCE
Foi esse um tempo magnífico para Filomena; vivia muito entretida com a construção de seu teatrinho. Era ela própria quem dirigia as obras; quem arranjava os desenhos decorativos da sala e do frontispício; quem administrava e conduzia os trabalhos do cenógrafo.
Quinze dias depois, estava em ensaios a primeira peça. A casa tomou um caráter boêmio de atelier; encheu-se de amadores dramáticos, de músicos. Havia certo movimento, certa agitação alegre, feita de conversas em voz alta, de risadas, de afinações de instrumentos. Viam-se carpinteiros, de cachimbo ao canto da boca, trabalhando e cantarolando em mangas de camisa; panos enormes, estendidos no chão, cobertos de tinta; costureiras, aderecistas, operários de todos os gêneros, a entrar e a sair, numa atividade ruidosa.
O Borges andava muito atrapalhado com tudo aquilo, e principalmente com o seu papel.
— Ora que diabo me havia agora de cair na cabeça!... dizia ele consigo. Eu nunca tive queda para ator. Esta só a mim sucede!
Mas a peça ficou ensaiada; expediram-se os convites, e no dia do espetáculo o teatrinho de Filomena encheu-se de amigos.
O Barradinhas era o melhor dos curiosos, e fazia de galã. Devia ir muito bem; tinha enorme talento para a cena; "uma figura de arrebatar"! Bonito, cabelos crespos e uma voz "que nem um tenor italiano"! Filomena representava a sua amante; ele caía-lhe aos pés, várias vezes, e dizia-lhe longas frases retoricamente apaixonadas.
O Borges é que não ficava muito satisfeito com a história. — Ele, para que o havia de negar?... não morria de amores por — aquele gênero de divertimento!...
E cuidava muito mais em vigiar o galã do que em estudar o seu papel. Pode ser que se enganasse... mas ia jurar que aquele pelintra não tinha por ali muito boas intenções!... Ah! ele sabia perfeitamente que a mulher não era das mais fáceis... (Oh! se sabia!) não estava, porém, em suas mãos afastar os olhos de cima do tal galã! Era lá uma cisma!...
— Também! Pobrezinho dele, se me cai na arara de tentar alguma! jurava o mestre de obras. Racho-o de meio a meio!
E — rachava. Mas o bonito curioso, bem a contragosto, não tinha achado ainda uma boa ocasião para dizer em particular a Filomena o que lhe repetia todos os dias, ajoelhado a seus pés, defronte do marido. Por várias vezes estivera até "vainão-vai", chegara a supor que a coisa se decidia; mas o diabo do Borges apresentava-se de repente, e... lá se ia a ocasião.
— Por ela, coitada! estou garantido! considerava o Barradinhas, pensando nos olhares prometedores de Filomena. Está caidinha! Assim dispusesse eu de um momento!... Não queria mais que um momento!... Dizer-lhe uma palavra; entregarlhe uma carta; fazer-lhe um sinal — bastava!
Mas o demônio do marido nem isso permitia!
A peste não fazia outra coisa senão vigiar a mulher! — Cacete!
Chegou o dia do espetáculo, sem que o Barradinhas tivesse oportunidade de ouvir dos lábios de Filomena aquilo que havia tanto tempo diziam os olhos indiscretos da formosa criatura.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.