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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Quando soubera que o hóspede regressava ao exercício das suas funções paroquiais em Silves, Felisberto gargalhara o seu contentamento numa risada convulsa, que expandira a sua fisionomia de jovem tapuio civilizado, numa expressão alvar de orgulho satisfeito. Havia muito que nutria secretamente o desejo ardente de ver o hóspede voltar às funções da vigararia, ambicionando a continuação da gloriosa ocupação que iniciara sob os auspícios do defunto padre santo. Ia agora talvez conseguir a honra de acolitar o novo padre santo, com o tal Macário ou sem ele, não na indiana Maués, mas num povoado muito mais importante, na civilizada Silves, cuja população branca ele cuidava deslumbrar com as mesuras e salamaleques que aprendera no ofício com o latinório de contrabando que padre Antônio escutara maravilhado nos sertões de Guaranatuba.

Maior fora ainda o seu prazer quando, risonha e feliz, a mana Clarinha o certificou de que o senhor padre a queria levar consigo para lhe lavar a roupa e tomar conta da casa, porque S. Rev.ma, coitado! não tinha jeito nenhum para o governo da casa, que o Macário deixava andar à matroca, e a respeito de lavagem de roupa era uma ladroeira monstruosa em Silves, além de uma pouca-vergonha na demora e porcaria do serviço. A princípio a Clarinha ficaria num sítio do rio Ramos, no Tucunduva, enquanto o senhor padre arranjasse casa e dispusesse tudo para a receber e agasalhar dignamente; mas, havia prometido, a demora não seria longa, porque S. Rev.ma estava resolvido a não continuar sem mulher em casa, por causa das perdas e transtornos que essa falta lhe ocasionava. Ouvindo isto, o Felisberto não se pudera conter, pulara como uma criança. A dupla decisão de padre Antônio de Morais fazia antever um futuro de honras subidas e de prazeres incomparáveis, realizando o sonho com que se pagara a sua imaginação de tapuio, vaidoso da consideração que lhe dava o namoro de S. Rev.ma com a Clarinha.

Por isso, remando à proa do ubá, descendo a corrente do rio Abacaxis, o Felisberto antegostava o prazer de repenicar, com a força dos pulsos acostumados ao corte das rijas maçarandubas, os sinos afamados da Matriz de Silves, que o padre santo lhe descrevera como de verdadeiro bronze, de som argentino e de bela aparência dourada. Já se imaginava de opa encarnada, carregando o missal de um lado do altar para outro, com mesuras graciosas e latinórios difíceis, balançando o turíbulo cheio de sufocante incenso queimado, numa gravidade solene, e às ocultas, depois da missa, por detrás, do altar-mor, fingindo apagar as velas de cera com o apagador de couro preto pregado à comprida vara, devorando silenciosamente as hóstias da caixinha de lata, regando-as com o vinho branco das galhetas, na satisfação da sua gulodice de tapuio, não acostumado à farinha de trigo e ao vinho estrangeiro, alcoolizado e doce.

João Pimenta governava o jacumã, silencioso e apático, mascando tabaco, e embebendo o olhar na contemplação passiva do céu, das águas, das árvores da beirada, da grande natureza que amesquinhava a sua personalidade embrionária de mundurucu batizado.

Padre Antônio de Morais, meio deitado no fundo do ubá, ao lado da apaixonada Clarinha, com o chapéu sobre o rosto para o resguardar do sol; cismava. enquanto o ubá deslizava, impelido pelos compridos remos dos dois tapuios.

Haviam sido rápidos, apressados os últimos dias passados no sítio da

Sapucaia. O padre sentia uma grande impaciência, queria chegar quanto antes a Silves, para assumir o exercício da vigararia, antes que o Costa e Silva regressasse do rio Madeira e espalhasse a notícia que obtivera sobre o missionário da Mundurucânia.

(continua...)

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